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LARA
Eu estava ali, imersa na monotonia da louça acumulada, quando a porta da cozinha se abriu abruptamente, revelando a figura imponente de Suzane, minha madrasta. O tilintar de uma taça de vinho se quebrou no chão, ecoando como um prenúncio sombrio. A presença dela sempre trazia consigo ares de tempestade.
— Limpe. — A ordem foi jogada no ar, ríspida e desdenhosa, enquanto ela me encarava com seus olhos frios e cruéis.
Suspirei, mantendo meu foco na pia cheia de louça. Era um ritual diário, uma dança exaustiva com a rotina e com a figura autoritária que insistia em reinar na casa após a morte de meu pai. Havia um tempo em que este lugar era meu refúgio, mas Suzane transformou-o em um campo de batalha.
A água morna tocava minhas mãos ásperas, e eu sentia a tensão acumulada como uma carga pesada em meus ombros. Não precisava olhar para saber que ela observava cada movimento, cada expressão de cansaço em meu rosto. A culpa da separação com Hélio, meu ex-marido, pesava sobre mim, e Suzane aproveitava-se disso para reforçar seu domínio.
— Deve ser grato por ter um teto sobre a cabeça, mesmo que este teto seja meu. — Ela resmungou com um sorriso irônico, deixando a taça quebrada no balcão.
Minha resposta estava contida no silêncio, uma defesa contra as palavras afiadas que ela lançava como facas. As lembranças do meu pai, do tempo em que esta casa era um lar, permaneciam vívidas em minha mente, mas Suzane insistia em obscurecer essas memórias com seu egoísmo e sua hostilidade.
Enquanto me abaixava para recolher os cacos, senti o peso de uma vida que, de alguma forma, parecia desmoronar ao meu redor. Enzo, meu pequeno raio de luz, brincava no quintal, alheio às turbulências adultas. Eu queria mais para ele, queria um lar onde o amor e a compaixão reinassem, mas parecia uma utopia inatingível.
O toque áspero da esponja na louça parecia ecoar minha própria luta. Eu era uma diarista, uma mãe solteira, e Suzane se aproveitava disso, explorando as feridas abertas em meu coração. Mas eu sabia que, mesmo na monotonia das tarefas domésticas, eu era forte. E, apesar das nuvens negras, o sol da esperança ainda brilhava no horizonte distante.
Respirei fundo, erguendo-me com determinação. Suzane poderia tentar extinguir minha luz, mas eu persistiria. Enquanto lavava as últimas louças, sorri para o futuro incerto. Mesmo na sombra da madrasta, eu acreditava que o amor e a coragem me guiariam para longe desse pesadelo, rumo a um destino onde a verdadeira felicidade floresceria.
O som de pratos sendo secos ecoava na cozinha, indicando o término de mais uma rotina diária de limpeza. Os cacos da taça já haviam sido recolhidos, mas a tensão persistia no ar como uma fina camada de poeira invisível. Enzo, meu pequeno raio de sol, assistia a desenhos animados na Netflix, suas risadas inocentes preenchendo a sala com uma doce melodia.
Ao me aproximar, sorri para ele, agradecida por esse momento de leveza em meio ao caos. No entanto, a atmosfera mudou repentinamente quando Suzane, minha madrasta, entrou na sala e, sem cerimônia, tomou o controle remoto da TV.
— Isso não é apropriado para ele. — Minha voz soava firme, mas Suzane parecia ignorar completamente minha presença.
Ela mudou o programa para uma série inadequada para a idade de Enzo, desconsiderando minha preocupação materna. Olhei abismada para ela, os olhos de Suzane se encontraram com os meus em desafio.
— A casa é minha, eu que pago as contas aqui. Se não está contente, é melhor procurar outro lugar para morar.
A frieza de suas palavras cortou como facas afiadas, atingindo em cheio meu coração já dilacerado. Meu filho merecia um ambiente seguro e acolhedor, e Suzane estava roubando dele até mesmo esse direito básico.
Sem proferir uma palavra, peguei Enzo em meus braços e abandonei a sala, deixando para trás a aura tóxica que emanava de Suzane. Ao chegar ao meu antigo quarto, aquele que já foi meu refúgio antes do casamento com Hélio, as lembranças do passado ressurgiram com força.
Abraçando Enzo, me deixei cair na cama, as lágrimas começando a escorrer involuntariamente. Aquelas quatro paredes, que um dia foram testemunhas de momentos de felicidade ao lado de meu pai, agora se transformavam em um santuário de tristeza e desespero.
A situação parecia um beco sem saída. Não podia voltar para Hélio, pois as feridas do passado ainda eram muito recentes. Suzane havia fechado as portas para mim, transformando o que já foi um lar em um campo de batalha.
Enzo, sentindo minha angústia, acariciou meu rosto delicadamente com suas pequenas mãos. Seus olhos, ainda brilhantes de inocência, buscavam conforto na mãe que estava prestes a desmoronar.
— Vai ficar tudo bem, meu amor. — Minha voz, embargada pelas lágrimas, tentava transmitir uma segurança que eu mesma não sentia.
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