/0/14917/coverorgin.jpg?v=ca05c9bc264153e06e72e43816e94549&imageMogr2/format/webp)
Uma nova e densa nuvem de fumaça tomou conta do lugar. Os barulhos altos, as vozes estridentes em berro, as chamas das grandes frigideiras de ferro, que eram agilmente mexidas, cintilava no ar... Tudo se misturava com os vários aromas, criando aquela atmosfera de glamour, mas também de sufocamento. Aquele lugar sempre a assustava, mesmo que já estivesse trabalhando ali já a algum tempo.
— Pedido saindo!
A garota de cabelos negro-azulados piscara uma ou duas vezes, perdida no meio das chamas altas, quando o grito chamou sua atenção. Ouvia os comandos no meio do caos à medida que aqueles pratos saiam. Seria algo bonito de se apreciar, mentiria se disse que não via um brilho especial enquanto a cozinha industrial funcionava, se perdendo naquilo. Poderia talvez facilmente ser ver ali entre os cozinheiros, e até tentou uma ou outra vez, mas para o seu azar, ou tamanho pequeno, resultou em algumas queimaduras. Agarrou mais forte o esfregão, que era o seu companheiro constante naquele lugar e auxiliar na sua função. O avental branco que a cobria, parecia ter dois ou três números a mais do que deveria. Um pouco desengonçada, tentava fazer o melhor que conseguia no meio do caos. Não era o trabalho de sua vida, muito menos algo para se apegar, mas era tudo que restava para sobreviver, visto o trabalho que sua mãe desempenhava naquele lugar.
As ordens de Anya, sua mãe, haviam se fixado como um manual na pequena mente: nunca fale nada, jamais responda, nunca pergunte e apenas faça o seu trabalho, não olhe nos olhos de ninguém e o principal, em hipótese alguma, ouse ser alguém, ainda mais aqui.
Triste, não?
Infelizmente aquele espaço era tudo que ela conhecia. Seu pequeno mundo se resumia àquilo e aos livros que conseguia vez ou outra colocar as mãos, e se tinha algo que ela sempre tivera absoluta certeza era isso: ela não era nada, e nunca seria nada. Mas se pudesse um dia apenas vislumbrar a luz do sol, talvez o tocar, teria ela a mesma sina de Ícaro?
Todo o seu mundo se resumia aquele espaço e as vielas e ruas de seu entorno. Seu mundo era tão… pequeno.
A pele branca demais denunciava o excesso de tempo que passava restrita aquelas paredes de contensão. Ali não era apenas o lugar que trabalhava, mas que vivia. Nasceu ali, e rogava a Deus para não morrer ali. Não que nunca tivesse saído, ela o fazia, mas havia sempre um limite, havia sempre o grilhão de retorno, uma espécie de coleira. Era um animalzinho, e como tal, se fugisse, seu dono ficaria muito, muito zangado.
Poderia ser pior, certo? Talvez fosse os momentos em que ela pensava na regra principal e indiscutível: nunca, jamais, deveria entrar na segunda parte daquele lugar. Ela não sabia o que era, muito menos o que tinha depois dali. O que vinha depois das grandes e pesadas portas aço era uma completa incógnita, mas se era uma regra de sua mãe, ela respeitaria, afinal, ela era única pessoa da qual confiava, seu único porto seguro, seu mundo e suas certezas. Ela lidava bem com tal regra, embora quando menina pequena ainda tentou espiar, mas não tinha forças para abrir as tais portas, porem aos poucos fora perdendo a coragem de tentar, mesmo que a curiosidade ainda vivesse em si.
Anya sempre cuidou dela, mas já faziam exatos seis meses que sua mãe havia desaparecido dali. Ela fora levada em uma viagem ao lado de um cara e nunca mais voltou. Seis meses que ela chorava sozinha, seis meses que ela suportava, que orava, que rogava, que mantinha a fé. Seis meses dentro do inferno e sozinha. Era preferível acreditar que ela apenas estava fazendo algum trabalho, certo? A regra especial que ela criara para si: nunca pergunte o que tem medo de saber. O que houvesse do outro lado daquela porta não deveria ser tão bom, afinal, sua mãe trabalhava do outro lado, e ela se foi... Como outras.
Os palavrões proferidos pelo homem gordo, alto e fedorento a despertaram. Boris era o que ela chamava de porco pervertido, um homem nojento em todos os sentidos, agarrava sempre as garotas que trabalhava ali, cheio de toques indecentes, palavras sujas ou outras coisas que ela preferia não se atentar. Tinha certeza que se um dia aquele porco nojento tentasse algo, certamente enfiaria uma daquelas tantas facas que haviam ali na cozinha, nele, sem pensar duas vezes.
A garota de cabelos negros, passou então a dar atenção ao que ele falava e gritava em inglês com alguém ao telefone, ela não entendia bem o tal idioma, mas o suficiente para compreender algumas frases soltas, diferente do que podia parecer, ela era bem mais esperta do que parecia, aprendia com bastante facilidade, lia muito e tinha orgulho, mesmo que ainda escondido. Certamente aquelas pessoas nem imaginavam que a mãe a alfabetizara, e que fora bem além disso. Quando tinha tempo e conseguia se desvencilhar daquilo, se trancava em algum corredor de uma livraria lendo escondida até ser expulsa de lá.
Naquele diálogo, ela percebeu que Boris tinha problemas, e grandes. A menina estava tão concentrada o olhando enquanto ouvia a conversa que nem se deu conta do sorriso perverso que se formava no rosto deste, e quando finalmente o viu, era tarde. Tão frio e maquiavélico... Agarrou seu braço esquerdo com força, a puxando em meio ao turbilhão da cozinha quente, entre tachos imensos e labaredas. De uma estante pegou um par de roupas e jogou contra o peito dela que franziu o cenho confusa.
— A casa está cheia hoje querida, vai servir! – disse ao tirar o cigarro dos lábios e soprar a fumaça na cara dela rindo. – Sua grande chance de brilhar.
A garota de cabelos negros noturnos, no entanto, estendeu a roupa a observando melhor e pela primeira vez na vida quebrou a regra, - bom ao menos na frente de alguém –
— Eu não vou vestir isso! Não tampa nada! – Os olhos arregalados, as bochechas coradas e um ar de certo modo irritadiço e contrariado. Ela tinha uma personalidade bastante calma, tímida..., mas aquilo?
Ela estremeceu diante da possibilidade de usar aquelas vestes, mas mesmo diante de sua pacificidade, seu ato de teimosia fora enxergado como revolta e rebeldia e ela se chocou quando a face ardeu de um tapa certeiro ali.
— Cobre o bastante, garota! Não que você tenha muito que possa interessar alguém – ele riu zombando-a embora os olhos tenham se direcionado aos seios juvenis e um tanto volumosos – vamos! Se troque! Não tenho a droga do dia todo!
Ela olhou em volta procurando algum lugar a fim de entrar para fazê-lo.
— Onde... Eu vou me trocar? – hesitou enquanto sentia a face arder, tendo certeza que deveria estar parecendo um pimentão maduro.
/0/6572/coverorgin.jpg?v=ccdef9dc4b6c717f76cf929f2fdcc0c8&imageMogr2/format/webp)
/0/5258/coverorgin.jpg?v=80ae7f94fac897a35870cd36d3b86be7&imageMogr2/format/webp)
/0/8092/coverorgin.jpg?v=5d56f9fed55702085c18b86a0e63b47f&imageMogr2/format/webp)
/0/2609/coverorgin.jpg?v=41254a468a10c11626a248716e109b5d&imageMogr2/format/webp)
/0/920/coverorgin.jpg?v=cd523cf580b89d900c6f1f7ba2333df5&imageMogr2/format/webp)
/0/1508/coverorgin.jpg?v=715479de448d9fcc29dc71316b264652&imageMogr2/format/webp)
/0/1019/coverorgin.jpg?v=5230954bb1725ccf6f5e906f3d2b0056&imageMogr2/format/webp)
/0/1538/coverorgin.jpg?v=6d75026f8db36d5cc5343a7d9a246450&imageMogr2/format/webp)
/0/4688/coverorgin.jpg?v=45a816618fd2cb6d07040969c68e3dea&imageMogr2/format/webp)
/0/993/coverorgin.jpg?v=7de47500e9e7c13520baa1c2ac5886f7&imageMogr2/format/webp)
/0/1331/coverorgin.jpg?v=0a0b7e94d6560272827e8c2ba3955ebe&imageMogr2/format/webp)
/0/16321/coverorgin.jpg?v=7bdd15d37becba4a6129739e61e9dc36&imageMogr2/format/webp)
/0/5337/coverorgin.jpg?v=e4fc86718873271869eb402da6b7fb3c&imageMogr2/format/webp)
/0/16676/coverorgin.jpg?v=24c4dfc3a9c6a04d919f5ec27d734d13&imageMogr2/format/webp)
/0/14653/coverorgin.jpg?v=70bc854996d5e397bad177798f3c92f1&imageMogr2/format/webp)
/0/8791/coverorgin.jpg?v=e37b99752e5df2917f2bb14d5c839af9&imageMogr2/format/webp)
/0/17799/coverorgin.jpg?v=5506657af491d2016a0585f8927df304&imageMogr2/format/webp)
/0/17000/coverorgin.jpg?v=518e672ac1d29e932eec9ee5d368e02e&imageMogr2/format/webp)
/0/2340/coverorgin.jpg?v=a7f364f40a38cefe239d257f6c45bd89&imageMogr2/format/webp)