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Os meus saltos ecoavam contra a calçada levemente úmida, provocando um som abafado e incômodo, conforme eu caminhava apressadamente na direção do meu "ponto" de trabalho.
A esquina era ocupada apenas por mim e por minha parceira de trabalho, Suzie. Ela estava parada casualmente contra a parede pichada de uma loja, e jogou seu cigarro fora ao identificar minha silhueta em meio à noite escura. Nosso ponto era o menos iluminado; mais seguro para os clientes, e motivo de medo absoluto para as garotas como nós.
Ruan, nosso cafetão, estava sempre rondando as esquinas com a desculpa esfarrapada de que protegia suas garotas, mas todas nós sabíamos que ele só fazia aquilo para garantir que a coleira em torno do nosso pescoço permanecesse bem apertada.
Muitas garotas aproveitavam estar em pontos menos visíveis da cidade para fugir das dívidas adquiridas ao longo da vida com aquele homem, mas a fuga era apenas mais um motivo para que ele adicionasse mais alguns anos de dívidas em nossa conta; todas pagavam pelo erro de uma, era o que ele dizia, então, foi um acordo entre todas as dezesseis garotas de que Suzie e eu éramos as mais responsáveis para manter naquele ponto.
No momento em que notei o carro preto deslizando suavemente ao meu lado na rua, apressei meu passo, tomando um lugar ao lado de Suzie contra a parede rabiscada pela arte de rua. Ruan acelerou quando percebeu que eu já estava em ativa e muito alerta, então suspirei, sem querer inalando toda a fumaça do cigarro de Suzie.
— Não sei por que é que você continua fodendo seu pulmão com essa coisa, Suzie — reclamei em tom de reprimenda.
Suzie deu uma risada alta que ecoou pela rua parcialmente escura. Os seus cabelos tingidos de vermelho e repicados num corte estranho oscilaram quando ela virou a cabeça para me olhar.
— Day, se tem uma coisa que eu estou nessa vida, é fodida — disse ela, desembalando um chiclete e me oferecendo outro. — Foder meu pulmão não vai fazer diferença.
Eu masquei o chiclete, permitindo que o sabor de menta preenchesse meu estômago vazio. Apesar de ter um cafetão, isso não significava que eu tinha dinheiro para as coisas mais básicas como comer e ter onde dormir.
De vez em quando eu dormia na casa de Suzie, ou então em algum abrigo para os sem-teto. Até os hostel se tornaram um lar para mim. Eu frequentava qualquer lugar que fosse grátis ou bem barato. E, considerando que o dinheiro não ficava comigo — já que Ruan controlava nossos horários com cada cliente e os ganhos para poder tomar tudo no fim da noite —, nem sempre eu tinha algo para comer ou coragem suficiente para pedir.
Suzie enfrentava uma situação semelhante, embora sempre houvesse algum pão velho em sua casa, mas energia eletrécia em casa era um artigo de luxo que ela nem conhecia. E eu muito menos.
— Só vai diminuir seus anos de vida — continuei me referindo ao cigarro.
Suzie apenas deu de ombros. Eu olhei para a placa ao lado da lombada, onde uma de nós sempre deveria estar ao notar a aproximação de um cliente.
— Você conseguiu alguma coisa essa noite?
— Nada — Suspirou ela, fechando os olhos, conforme encostava a cabeça na parede. — O movimento está tão fraco e nossas dívidas cada vez maiores. Parece que ninguém mais valoriza o trabalho de uma puta. Acho isso uma palhaçada.
Eu dei risada, mas a situação era mais trágica do que cômica. Sem clientes, sem dinheiro, e sem chance alguma de quebrar o acordo que fizemos ao conhecer Ruan.
E a tendência era apenas piorar, porque não era coincidência que as pessoas evitassem certos pontos das esquinas. Toda a cidade sabia que a prostituição tomava as ruas durante o anoitecer, então se algum cliente fosse pego em flagrante por aquelas bandas, ele não teria como se explicar.
Além do mais, tudo o que cobrávamos para fazer, era repetitido de graça ou mais barato ainda pelas mulheres viciadas em drogas. Ainda éramos as escórias da sociedade, e nem ganhávamos bem para aguentar toda a humilhação e sofrimento.
Um carro de polícia passou silenciosamente pela rua, mas não parou. Os policiais eram aqueles que pagavam melhor, sem falar que muito até nos davam alguns pequenos mimos — que fazíamos questão de esconder antes de Ruan encontrar. Só que eles pareciam ocupados demais naquela segunda-feira. Dias de semana eram fraquíssimos.
— Esse ponto de merda não ajuda em nada — reclamei em tom sussurrado.
— Quer ficar mais perto da rua? — perguntou Suzie.
— Pelo menos assim, os clientes podem nos ver melhor — sugeri com um dar de ombros.
O movimento fez com que minha blusa curta subisse ainda mais para cima do umbigo, e eu a ajeitei novamente, dando alguns passos adiante para ficar ao lado da placa que indicava a lombada.
Observei ao longo da rua, procurando algum sinal de carros, enquanto deslizava uma mão sobre a saia de camurça azul para manter tudo no lugar. As minhas botas até os joelhos já estavam tão desgastadas que até faziam o couro preto se soltar ao toque, por isso as arrumei apenas uma vez.
— O primeiro é seu — disse Suzie, tornando a acender mais um cigarro. Ela deveria estar no seu auge da ansiedade— Já estou esperando há horas.
Eu assenti para ela, e voltei minha atenção para a rua. Os faróis brilhavam sempre, mas os motoristas sempre desviavam, virando uma esquina antes para evitar as garotas de programa. Eu me recostei no poste da placa, de braços cruzados e olhos atentos.
No que se pareceu apenas segundos depois, um carro deslizou suavemente pela rua, tão devagar que até pensei que fosse Ruan retornando, mas não era ele. Notei isso apenas quando percebi que o carro em questão era de primeira linha, não aquela lata-velha que Ruan ostentava com o dinheiro da nossa dura jornada de trabalho.
O carro parou ao meu lado, e o vidro abaixou-se para revelar um homem calvo e relativamente gordo. Ou bem forte, considerando que as roupas dele eram pretas e largas, mas eu não podia enxergar muito bem o interior do veículo.
Eu me aproximei da janela com um sorriso doce, daquele tipo que os homens adoravam. O homem no volante também sorriu.
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