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Destruição de Obras, Destruição de Alma

Destruição de Obras, Destruição de Alma

A poeira fina do ateliê de cerâmica parecia o véu da minha solidão, meu único refúgio na casa dos Silva, meus pais adotivos. Eles nunca me deixavam esquecer a "dívida" que eu tinha, cada peça que eu vendia era dinheiro para o bolso deles, e meu talento, apenas mão de obra gratuita. Mas então, a notícia bombástica: Dr. Ricardo, um empresário famoso, procurava sua filha biológica perdida, e todas as pistas apontavam para mim. A família Silva entrou em êxtase, não por mim, mas pela fortuna que esperavam. O pesadelo começou a se materializar quando Patrícia, uma moça deslumbrante e arrogante, surgiu à porta, afirmando ser a verdadeira filha de Ricardo. Ela exigiu um teste de DNA, e eu, por algum motivo, senti um frio na espinha, como se já tivesse vivido aquele momento. Os Silva, pálidos e confusos, viraram-se contra mim como abutres, já calculando suas novas probabilidades financeiras. Naquela noite, meu forno foi sabotado, minhas obras-primas destruídas, e eu sabia, era ela. Não bastasse a humilhação, Patrícia tentou me envenenar com um sanduíche laxante para que eu chegasse atrasada ao encontro com Dr. Ricardo, tudo para se posicionar como a "filha ideal". Eu deveria estar arrasada, mas algo era diferente. Eu me lembrava disso. Lembro-me de cada mentira, de cada passo cruel. Era como se eu tivesse tido um vislumbre do futuro, um pesadelo tão real que se tornou um aviso. Não era a primeira vez para mim. Desta vez, eu não seria a vítima. Aquele sanduíche envenenado não seria o meu desastre. Eu estava prestes a reescrever o roteiro, e Patrícia nem imaginava o que a esperava. Minha vingança começaria agora, e não seria doce, seria implacável.
O Sorriso Que Escondia Veneno

O Sorriso Que Escondia Veneno

A fazenda estava em festa. Todos celebravam minha aprovação na universidade federal. Um feito inédito para uma menina da roça como eu. Mas para mim, Ana Paula, a quietude dentro do peito contrastava com a alegria ao redor. Porque esta celebração não era uma comemoração. Era um funeral. Meu avô, Zé Pedro, com seu sorriso largo, se aproximou com a cachaça na mão. O senhor Joaquim Silva, o patriarca vizinho, ao lado. "Parabéns, Ana Paula. Sabia que você era uma menina esperta." A voz dele era como o raspar de lixa na minha pele. Minha mão não tremia ao servir os copos de cachaça especial. Aquela que preparei. Com veneno, claro. Enchi o copo de cada um que se beneficiou do meu sofrimento. Cada cúmplice que fechou os olhos para o inferno que eu vivi na minha própria casa. O caos começou lentamente. Corpos se contorcendo no chão. Gritos substituíram risadas. Eu observei. Não senti nada, apenas um vazio gelado. Peguei o querosene que escondi antes. Derramei sobre o chão, cortinas e móveis. Ninguém me impediu. Estavam ocupados demais morrendo. Um fósforo riscado. O fogo subirá com um rugido voraz. Vinte e nove. Trinta e dois. Na sala de interrogatório, o delegado Ricardo Santos batia na mesa. "Trinta e duas pessoas! Queimadas vivas! E você nem sequer derramou uma lágrima!" Eu sorri, os lábios chamuscados. "Ele mereceu mais do que todos." Minha calma o desestabilizava. Ele queria remorso. Eu era só uma paz terrível e resoluta. "Eu quero ver meus pais." A menina que ele descreveu havia morrido há muito tempo, naquela fazenda. No lugar dela, nasce um monstro. E naquela noite, o monstro finalmente se libertou.