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5
Capítulo

Sara Queria sempre foi uma mulher determinada e forte, onde a fé era grandiosamente enaltecida em seu corpo. Após momentos desnorteantes em sua vida, decidiu viajar com sua amiga Chelsea, para a Noruega, com a curiosidade de conhecer o museu mais famoso do país. Local onde, de acordo com as lendas que lia com entusiasmo, ficava a aldeia de Asphardi, onde o exilado Cavaleiro de Vidro, assassino, deus e rei de todo o planeta Adamantem, Ethan Haavik, viveu a sua vida até os colapsos do Reino Ônix. O destino é traiçoeiro e eles se cruzam quando Sara anseia um pequeno desejo de frente para o Turíbulo Relicário e Limiar de Basami, e então o toca no fulgor e é levada para outra dimensão. Para uma realidade alternativa onde obrigatoriamente é forçada a se encontrar com o Filho da Salvação. O homem que luta e foge pela sua paz. Sem opções e mesmo com medo, Sara pede a ajuda do assassino mais temido da Ordem Lapidada para sua jornada de volta para a casa. E então, vendo que o turíbulo manipulou sua realidade, que sua forma espectral estava em dois lugares ao mesmo tempo, os dois aceitam que seus ideais são mais parecidos do que pudessem imaginar e acabam entendendo que o objetivo de Sara em Adamantem, junto com Ethan Haavik, é muito maior do que esperavam.

Capítulo 1
Prologo

Caminhávamos pelas ruas sob a forte neve cobrindo as calçadas, para o Lofoten Krigsminne Museum que ficava aberto até tarde da noite. Nossos cílios poderiam estar facilmente congelados e os nossos lábios se estremeciam junto com as nossas mãos.

— Você me paga sua fresca, meus pés estão congelando! Cadê a diversão deste lugar tão chato?

— Sabe que sem a sua companhia, não há diversão, Loirinha. Só acho que está muito cedo para reclamações. — Exibi um sorriso, sentindo o frio congelar ainda mais os meus lábios desidratados. Apesar da exagerada neblina, me sinto feliz ao seu lado, sabendo que reatamos aquela amizade primitiva e genuína.

Depois de muitas explicações, Chelsea Donner não só me perdoou como havia compreendido os fatos. Foi muito nobre de sua parte me deixar escolher o local da viagem para termos nossos momentos de irmãs de consideração, porém, devido aos gostos distintos, creio que se arrependeu desta ideia só para me agradar.

— Eu prometo que iremos nos divertir, acredite. Não te colocarei em apuros, não sou aquela boba ingênua que você teve que lidar em Angola, enquanto fazíamos as missões.

— Tentando se explicar desta forma, agora tenho certeza que não mudou nadinha, espero que não esteja pensando em encontrar a Elsa do Frozen, neste museu. — Observei seus lábios franzidos, enquanto me provocava com aquele olhar esnobe.

Realmente, nada mudou entre nós.

Me aproximei da garota, entortando sua touca salmon e descontando sua provocação. Incomodada, ela revida e ficamos como duas crianças bobas: rindo e se atacando no meio da rua. Como é de se esperar, pela sua competitividade, sou pressionada contra parede enquanto a garota germinava aquela fumacinha do frio, em meu rosto.

— Chega! Eu desisto! Não suporto este bafo! — Fiz um semblante de nojo, enquanto ria. — Coitado de quem for te beijar.

— Interessante… — Ela arqueia as sobrancelhas. — Me deu uma vontade de virar sapatão agora. Estamos longe de todos que conhecemos, seria um momento ideal… — Ela aproximou seus lábios, respirando fortemente de propósito enquanto exibia um sorriso provocativo.

— Para, para, por favor… eu desisto, você venceu!

— Adoro quando a princesinha implora por piedade! Não estou convencida, me de outro motivo para eu não te beijar agora.

— Eu pago nosso café ao lado do museu, pode pedir o que quiser. — Revirei o rosto enquanto sentia seu nariz gelado tocando na minha mandíbula.

— Você sabe falar norueguês? — ela me solta confusa, pois optamos por sair sem um guia turístico.

— Não, mas a maioria dos funcionários sabem falar francês, eu vi no manual, então, pode ficar tranquila que eu me garanto. — Me exibi inclinando o meu rosto em sua direção.

— Tô ferrada…

Deixamos aquelas conversas balelas de lado e seguimos rumo a uma simples cafeteria. De longe eu pude sentir o aroma aquecido e tostado do café, também dos pães recém-tirados do forno. Era um local confortável e aquecido por conta das janelas fechadas e de pequenos aquecedores presos na parede. O local era incrível e permanecemos por alguns poucos minutos, pois já estávamos atrasadas para o museu.

Ao chegar no tão falado e famoso museu Lotofen, recebemos um guia tradutor para entendermos as histórias de cada relíquias em exposição. Observei cada item e ornamentação rica, borrifadas pela década de sua existência. Ao contemplar uma máscara que parecia ser feita com prata, em tons negros ao lado de um capuz que me fazia ter ideia de ser um guerreiro misterioso. O guia começou então a contar a história magnífica e cheia de adrenalina daqueles simples objetos e senti uma energia pesada e talvez violenta subir o meu estômago. A máscara era concisa e possuía apenas duas pequenas orbitais vazias – como olhos semicerrados –, sem muitas expressões e detalhes, exceto por alguns grandes arranhões, estes que eu não conseguia decifrar por qual motivo tenha surgido. Não tinha boca, e quase não dava para ver o que tinha embaixo. Então, um arrepio deslizou pelo meu corpo e suspirei, ansiosa por algo.

— Gostou dessa máscara sinistra? Achei que princesinhas só gostassem de observar coisas meigas.

Desperto daqueles segundos de devaneios estranhos. Não consegui conter o sorriso idiota no rosto, perplexa e encantada por aquela máscara negra, imaginando como seria viver em uma época medieval. No que possivelmente aquela máscara teria trago à população daquele lugar.

— Gostaria muito de saber como seria as nossas vidas, vivendo em uma época diferente. — Deslizo os meus olhos por mais algumas ornamentações e encontro um turíbulo, embaixo estava escrito “Limiar de Basami”, estava um pouco empoeirado, com uma certa brisa acinzentada emanando entre suas aberturas.

Era dourado como ouro, com pequenas saliências que formavam desenhos minúsculos, e alguns contornos azuis. Retratava algo em sua base, talvez a morte e a vida, o acordar e adormecer. Li o que estava escrito sore o seu opérculo “um caminho aberto, destinos unidos”, mas não consegui decifrar e me permiti apenas admirá-lo.

— Sinceramente, eu seria uma pessoa que desbravaria o mundo, viajando de navio, comandando todos os piratas nojentos! — Chelsea se empolga, convicta.

— Uau! Eu seria uma Lady, cavalgaria por vários reinos, descobriria formas de sobreviver às doenças, fazendo alianças e promovendo paz entre os reinos.

— Sinceramente, na minha opinião você não passaria de uma burguesa da realeza, rodeada de súditos babões. Não sobreviveria ao primeiro ataque. E outra, essa máscara e esse capuz que você tanto está admirando, é de um assassino. — sinto o meu estômago embrulhar ainda mais ao ouvir tais palavras, frustrando a minha perspectiva sobre o tal cavaleiro misterioso.

— Eu não acredito que ele seja um assassino como está dizendo aqui. Aqui está escrito que ele podia ter sido muitas coisas: um deus, um assassino, um caçador e até mesmo um cavaleiro. Nos resta saber agora, o que ele foi de verdade.

— Você e seu mundinho das fadas… Por isso sofreu danos, quase morreu por acreditar na bondade das pessoas. Ainda estou chateada por esconder tudo isso de mim.

— Desculpa, eu não queria atrapalhar sua vida, ser um julgo, eu sei que cuidaria de mim. Não queria que me visse daquela forma… — meus olhos ficam umedecidos por tais lembranças, até os dias de hoje penso como sobrevivi a tais desastres.

Ela me observou quieta, e aos pouco se afastou, deixando-me à vontade enquanto tentava digerir tudo aquilo. A única coisa em que me culpo foi não ter valorizado a nossa irmandade. Saí de Los Angeles ferindo os seus sentimentos. Me culpo pelas cicatrizes que deixei, cicatrizes maiores, que tive depois que fui brutalmente agredida até o meu último suspiro.

Voltei a observar aquele turíbulo dourado que resplandecia ardentemente como o sol. Sabia que era errado tocar em objetos, porém, naquela friagem, olhando para os lados, não resisti. Logo, estendi as minhas mãos sobre o objeto e senti um calor anormal junto com uma energia estranha, cobrir os meus dedos.

Minha pele formigou.

Subitamente, num piscar de olhos, vejo pequenos anéis espiralados de brumas, deslizando suavemente onde ainda havia o turíbulo que agora, brilhava tanto quanto uma vela. Senti os meus pelos se eriçarem e olhei para os lados, assustada, procurando por Chelsea Donner, porém, o lugar estava vazio e sendo tomado por algum furor mágico. Parecia que um sonho.

Uma linha dourada aos poucos caminhou e cortou o chão sob os meus pés, transformando a madeira vermelha e anosa em cinzas no ar gélido. Como se estivesse sendo pega e colocada em outro solo, sinto a gravidade pesada impedir o controle dos meus membros, até ser jogada contra o chão, com leveza. Tento respirar e percebo meus olhos sobrenaturalmente perderem o foco. Tudo escureceu e meus sentidos desapareceram.

O tremor em meu corpo me obrigou a acordar. Tampouco pensei que não conseguiria abrir os olhos, os mesmos que demoraram para se acostumar com a escuridão ao redor de onde eu estava. A neve parecia azulada na noite, e quando finalmente me dei conta do que aconteceu, soltei um breve grunhido de agonia e tentei me pôr em pé. Mas, mesmo me esforçando, o meu corpo me impedia. Sentia cada centímetro cúbico de pele congelado, desaparecendo na noite. Os meus órgãos gritavam de dor, os meus dedos queimavam mais do que no fogo.

— Tem alguém aí? — Questionei, mesmo que fosse perigoso ou em vão, pois obtive apenas o assobio tenebroso do vento como resposta.

Detidamente, consegui me virar e senti a neve balofa encontrar as auréolas intumescidas dos meus seios. Estou nua, e um desespero soalheiro começou a cobrir o vazio frio em meus órgãos e em meus membros, obrigando-me a me levantar. Eu preciso me levantar, preciso sair daqui. Lembrei de Chelsea e novamente minha garganta entalou, com a preocupação do que pudesse ter acontecido com ela. Onde estou, quem podia ter feito uma crueldade como essas? Pensei que talvez pudesse ser Otávio, mas como ele estaria aqui na Noruega? Se é que ainda estou na Noruega e após conseguir fazer uma avaliação das árvores ao redor, mesmo sob as brumas e a escuridão da noite, tive certeza de que não estava no mesmo lugar.

Tentei respirar fundo e escutei o desespero em meus pulmões e por mais estranho que possa parecer, não havia nada além da dor do frio em meu corpo despido, nenhuma marca ou arranhão sequer. Fico aliviada por saber que não fui estuprada, ou algo pior do que isso.

Observei novamente o lugar. As árvores são robustas como grandes carvalhos, algumas com muitas folhas e outras nenhuma. Havia um brilho pálido sendo emanado de algumas arvoretas e flores de arbustos, de forma mágica e estranha. Estou delirando, agora me convenci disso. Então, não deve ser difícil me levantar, já isso tudo deve ser só um sonho idiota. E por mais que eu estivesse forçando o meu corpo, parecia que eu pesava 100 kg a mais e tombei assim que fiquei de pé, quando minhas pernas perderam a precisão.

Cobri os seios e tentei novamente, com mais força e com os dentes atritando infinitamente, assim como o resto dos meus membros enrijecidos. Consegui enterrar os meus pés crus na neve e dar três passos. E após uma pausa para tentar me equilibrar, ao apoiar as mãos no tronco áspero e cheio de seiva amarelada, dei mais quatro. De alguma forma preciso encontrar algum lugar para me abrigar, antes que eu morra congelada ou antes que algum animal selvagem apareça para me devorar. Carne congelada e fresca – penso, preocupada, arrastando os dedos gélidos pelo meu braço.

Continuei caminhando, ainda me encolhendo e me abraçando para tentar me aquecer, o que era desnecessário, já quê, continuo estremecendo e sendo tomada por grandes espasmos de frio. Assim que me escoro em um tronco, sou impedida de dar o próximo passo ao escutar algum som à frente, instintamente prendo a respiração como se, assim, qualquer ser não pudesse ser capaz de me ver ou saber onde estou. Algum eco vibrou pelas copas das árvores estranhas e altas e veio até a mim, como uma risada cheia de empolgação.

— Não, não… — Murmurei, começando a retroceder quando as vozes ficaram mais evidentes em meus ouvidos.

Os meus pés atrapalhados de frio, subiam um por cima do outro, quase fazendo-me cair e ao escutar o eco firme das vozes, presumi ser em torno de cinco homens. Este é o meu fim, eu vou morrer. Com o coração descompassado, me forcei a caminhar mais rápido para tentar me esconder. Mas o som de folhas restolhando me fez frear por um momento e olhar para trás. Era tarde demais.

Encarei um homem surgindo entre as vegetações sombrias, coberto por uma armadura prateada e um elmo estranho na cabeça. Havia uma insígnia no seu peito, não consegui vê-la com clareza pois os meus olhos estavam turvos e também, estava longe o suficiente para me impedir de identificar qualquer desenho que estivesse ali. Isso com certeza, era uma brincadeira de mau gosto. Mas não descartei a possibilidade de um perigo eminente, mesmo que estivessem cobertos por essa fantasia tola. Com certeza não era metal de verdade.

Desatei a boca espantada quando outros sete saíram de dentro das vegetações fantasmagóricas e um apontou o dedo enluvado coberto pela armadura. Ótimo, é uma festa a fantasia e estou fantasiada de Eva.

— Veja só! — Ele gritou, com uma voz grossa e velha. Talvez eu pudesse derrubá-lo, com a adrenalina. Um só. Para os outros, com certeza, eu morreria facilmente. — Deve ser uma bruta imunda, fugindo da ordem!

O que ele quis dizer com isso? Não posso pensar nisso agora, preciso focar em como vou fugir neste estado crítico. O cavaleiro que estava na frente e parecia assumir o controle, dobrou levemente a cabeça e tirou o elmo para me observar melhor. O homem apertou o pomo da espada e a fez brandir um assobio infame que se mesclou com o do vento, quando a tirou da bainha branca.

— Mas que gracinha… — Ele murmurou e riu, cuspindo no chão logo em seguida. — Ela já está pronta para nós, vejam!

Ele caminhou e conforme seus passos se aproximavam, eu tentava recuar, estremecendo.

— Não se preocupe, vamos aquecê-la! — Os outros cavaleiros vis, riram e também sacaram suas espadas e começaram a se aproximar, lentamente.

— Por favor, eu não sei quem são vocês! — Disse, em vão. — Não sei o que vocês querem, mas, não me machuquem!

— Não me machuque! — Um dos cavaleiros repetiu, tentando imitar a minha voz e os outros caíram em gargalhada.

— Vai doer só um pouquinho, não se preocupe. — Respondeu, girando a espada na mão de maneira impressionante. — Uma bruta merece a libertação da alma condenada.

Tive vontade de chorar, mas me contive. Não vou chorar por esses homens desprezíveis, se for para morrer, morrerei tentando lutar e me salvar, mesmo que o medo e o desespero esteja esmagando o meu coração e o meu pulmão.

Então me virei e corri, com os músculos doloridos. Meus membros pareceram criar fulgor novamente e sem olhar para trás, continuei, pois a minha vida dependia disso. Não sei onde estou, não sei como vim parar aqui e não posso saber quem são esses homens. Gritei quando um deles acertou uma pedra em meu braço e eu quase caí, mas consegui me manter em pé, com a adrenalina pulsando em meu corpo. Só consegui pensar em Deus, para que ele me tirasse dessa agonia.

Escutava seus passos pesados sobre a neve rechonchuda, e torci para não me esbarrar em nada, com a escuridão da noite. Tentei encontrar a luz da lua para me guiar, mas não foi possível. Nem mesmo ela estava disposta a me ajudar, a iluminar o meu caminho.

Desesperadamente, escutava a minha respiração arfante sair pela minha boca, composta por gemidos causados pelo medo e pela tristeza do que eles fossem fazer comigo. Então, hirtei a cabeça e tentei criar algum foco para me esconder, tive forças para olhar para trás e vi todos eles correndo com as espadas balançando em suas mãos. Soltei um grunhido alto quando me esparrei em um galho pontudo, e novamente olhei para trás. Sorte não estarem com cavalos, ou eu já estaria morta.

Os pensamentos foram de má sorte pois quando menos esperei, senti o metal frio contra a minha pele nua quando virou-me. Tentei me defender ao empurrá-lo, mas ele foi mais rápido e se jogou contra o meu corpo e eu caí na neve. O impacto contra a pouca neve me fez gritar. Seu corpo me prensou contra o solo e tentei improvisadamente encontrar algum objeto para me defender de suas malícias, mas não havia nada além de galhos e neve.

Com os olhos cerrados para não ter que encarar seu rosto sulcado, virei a cabeça e tentei socá-lo com todas as forças que restavam em meu corpo.

— Me solte! — Gritei. — Me solte!

— Shh… — Ele sussurrou e colocou a mão protegida em meus lábios enquanto os outros homens observavam, já perto. — Os golvos sentirão o seu medo, o seu desespero.

Então aceitei e respirei fundo. Quando abri os olhos, com a coragem suficiente para ver seus olhos obscuros, ele pareceu se impressionar.

— Olha, é só uma humana glaudiamântica. — Disse. — Vou me divertir com você.

Quando levantou a mão coberta, tentei mordê-la mesmo com os dentes atritando de frio e ele se enfureceu, agarrou os meus dois pulsos e os jogou contra a neve, com força. Novamente gemi de dor, pela pressão de sua armadura, nitidamente de metal, contra a minha pele.

— Venham homens! Segurem as pernas dessa meretriz glaudiamântica! — Gritou com raiva e cuspiu em meu rosto.

Apertei os lábios e então um som agudo cortou o ar. Uma flecha voou em nossa direção tão rápida e imprevisível que atravessou o crânio do velho de cabelos brancos que prendia-me, e fez seu sangue jorrar em meu peito de forma cruel, após o estalo de ossos. Gritei ao ver o corpo do velho cair sobre o meu, morto e forcei-me a jogá-lo para o lado para tentar me levantar, e mais uma flecha cortou o ar, acertando o peito de outro cavaleiro.

— O quê? — Um dos homens se questionou.

Sob gemidos agoniantes, me arrastei sobre a neve, lentamente, para tentar me proteger mas outra mão segurou o meu calcanhar e me puxou novamente.

— Aah! — Gritei, e ele me virou.

— Sua imunda! Você fez isso! Eu vou te torturar até pedir-me para morrer! — Ele acertou um forte tapa em meu rosto, mas antes que pudesse acertar outro, a sombra de um homem surgiu atrás dos nossos corpos, longe o suficiente, e sei que ninguém além de mim o viu.

Ele ergueu seus dois braços com um arco recurvo e negro nas mãos, atirando mais uma flecha contra o corpo do vil que me prendia.

O homem alto estava coberto por roupas e armaduras negras de couro, no qual não dava para ver sua pele exceto pelos dois dedos brancos que estavam desprotegidos por sua luva de arqueiro. Suas roupas misteriosas quase o tornava só mais uma peça na escuridão da noite e ele avançou contra o primeiro corpo que estava pronto para lutar, após largar o arco recurvo no chão. O homem de preto, com uma espada em sua mão, a girou e cortou a cabeça do cavaleiro de prata, quando tentou investir contra o seu corpo, dando tempo para que os outros pudessem encontrá-lo rapidamente.

De forma ágil, ele saltou e girou fazendo sua manta negra esvoaçar-se pelo ar mesmo com o capuz ainda pregado em sua cabeça mascarada. Girou a espada novamente e tirou uma outra lâmina do cinturão preso no quadril. Ele bloqueou a estacada de mais um cavaleiro com a sua adaga e usou a espada para penetrá-la em seu peito, fazendo nascer uma tempestade de sangue em suas roupas.

Outro homem cavaleiro gritou correndo em sua direção, mas o mascarado foi mais rápido e o chutou quando chegou próximo do seu corpo. Girou e saltou novamente, apoiando o peso do corpo em uma das mãos e enganchando as pernas no pescoço desse mesmo cavaleiro, o jogando contra o chão. Impressionantemente ele se manteve em pé após o golpe, ferindo mais um que se aproximou com uma faca de arremesso, e logo voltando para o homem no chão, penetrando a espada em seu peito com uma brutalidade monstruosa.

Avançou contra o cavaleiro que já retirava a faca de seu estômago para voltar à briga, mas o mascarado bloqueou a sua espada, virando-se três vezes tão rápido quanto um dos tiros de suas flechas, investindo e defendendo-se e em seu último giro, deu uma cambalhota no chão, cortando a sua barriga no meio ao mesmo tempo. O cavaleiro de má sorte caiu, e mal teve tempo para piscar.

Faltando apenas um, o mascarado lentamente virou a sua cabeça e o observou taciturnamente no chão, balbuciando de medo com a espada tremendo em suas mãos.

— Esta é a minha mensagem aos adoradores diamânticos. — O homem de preto e mascarado sussurrou alto o suficiente. Pensei que eu não fosse conseguir escutar nada além dos seus grunhidos de determinação. Sua fala era diferente, com um sotaque estranho e forte. O “r” fazia a sua língua vibrar e o “di” e “ti” pareciam ser pronunciados sob os dentes superiores. — Eu abençoo o seu corpo, e a sua alma.

Então o último cavaleiro prateado se levantou com medo após absorver suas palavras e após ver todos os seus homens, mortos ao seu redor, quase caindo de novo. Não ousou ir para cima do homem de preto e começou a correr desesperadamente para dentro da mata, para tentar se salvar.

— É o demônio! — Ele gritava enquanto corria em zigue-zague. — O demônio!

O assassino se abaixou, sem pressa, agarrou o arco que tivera jogado no chão e lentamente tirou uma flecha da aljava, apoiando-a na corda do arco, a mesma que grunhiu quando a tensionou devagar, com os três dedos enluvados. Ele seguiu o homem com o arco, mirando-o lentamente para a direção em que corria e então, quando deu mais uma virada, soltou a flecha, que novamente cortou o ar e se enterrou na cabeça do cavaleiro infortuno, que já estava a metros de distância de nós.

Escutei o som do seu corpo ao cair quando a flecha encontrou seu crânio e grunhi de medo. Ele matou todos eles, agora me matará também, por mais que eu não quisesse acreditar nisso. Sem pressa, ele limpou a espada e a adaga em sua manta preta. Guardou a espada na bainha, posicionada em seus cinturões e me observou, com a adaga ainda presa em seus dedos, conforme tentei fazer algo para me salvar. Mas, o meu corpo estava cada vez mais indo em direção à morte congelante, tentando fazer com que eu me acostume com esse fardo. Forçadamente me virei e novamente comecei a arrastei-me, mentalmente me obrigando a ficar viva. Pensando que eu pudesse ser a próxima. Isso é ridículo, se ele quisesse, já teria me matado com uma de suas flechas.

Então, senti suas mãos enluvadas encontrarem os meus braços e ele me levantou com uma facilidade inquestionável e me jogou contra a primeira árvore, com força. Gritei de dor e agora, pude vê-lo melhor. Na verdade, só a máscara e as suas roupas de couro, das quais pareciam aquecê-lo de certa forma. Sua máscara era um vazio absoluto, não tinha expressões exceto um olho semicerrado que me impossibilitava de ver os seus originais. Não sabia dizer quais eram as verdadeiras cores que preenchiam os seus olhos, sei que tem a pele branca pelos dois únicos dedos destampados de sua luva de arqueiro.

E então lembrei-me do museu, esse é o assassino do museu. Como vim parar aqui? Será que tem ligação com o desejo que eu tive, de poder voltar no tempo para vivenciar todas essas experiências. Se for este o caso, gostaria de voltar agora. Mas não pode ser, essas pessoas estão fantasiadas, fazendo uma brincadeira perigosa.

— Quem é você? — Ele questionou, apoiando a adaga em minha garganta, com aquele mesmo sotaque apimentado. — Por que está aqui?

— Me solte!

— Quem a mandou aqui? — Questionou. — Responda-me! Foi Mestre Kyon, Silja?

— Do que está falando, seu insolente, assassino! — Gritei, socando o seu peito coberto por armaduras de couro, negras. — Você! Foi você quem me trouxe aqui! Me viu no museu e quis fazer essa brincadeira comigo.

— O quê? — Ele sussurrou, misteriosamente, e eu soquei mais o seu peito, o que parecia ser em vão. Ele não demonstrava sentir absolutamente nada.

— Você vai ser preso! Eu vou chamar a polícia!

— Polícia? — Ele repetiu lentamente, silabando, como se nunca tivesse escutado essa palavra antes. — Polícia. Foi a Polícia quem a mandou para vigiar-me! — Me balançou contra a árvore com força, fazendo o tronco brevemente arranhar as minhas costas.

— O quê? — Gritei, isso era ridículo. Como assim, foi a polícia quem me mandou vigiá-lo?

— Este é algum truque do Mestre Kyon? — Ele apertou mais o meu corpo contra a árvore. — Quem é você? Qual é o seu título na Ordem Lapidada?

— Ordem Lapidada? — Gritei, incrédula. O que ele está falando? Estou enlouquecendo? — Eu não sei o que é Ordem Lapidada! Eu não sei do que você está falando!

— Não? — Questionou para ter certeza. — Não conhece a Ordem Lapidada? Isso é impossível… Você é das Ilhas Esquecidas?

— Não! Eu não sei do que você está falando e muito menos sei o que é Ordem Lapidada. Agora, por favor, me solte, está me machucando!

Logo, após um tempo, ele analisou as minhas palavras e colocou-me no chão, guardando a adaga no seu cinturão de couro. Agarrou o meu pulso e me balançou, analisou o meu corpo nu de forma constrangedora, segurou a minha orelha e observou-a de perto, depois abriu os meus olhos com força, com dois dedos.

— Você não é uma bruta, nem uma bruxa ou qualquer outra criatura lapidada. — Ele disse.

— Lapidada? — Questionei, cada vez mais confusa.

Observei suas armaduras pintadas com o sangue vermelho dos guardas e engoli a saliva. Por mais que eu quisesse, não conseguia sentir tanto medo, ele, de alguma forma, me parecia ser uma pessoa boa. É algo completamente contraditório. Lembrei-me de Chelsea, quando disse que ele era um assassino e matava muitas pessoas, e fechei os olhos por segundos.

— Você realmente não conhece a Ordem Lapidada? — Ele quis garantir, dobrando a cabeça, curioso.

— Não… — Respondi, mas a minha resposta quase que não saiu, entre os suspiros frios. — Eu não sei como vim parar aqui, nem sei que lugar da Noruega é este.

Ele se assombrou, e enveredou a cabeça para perto da minha.

— Noruega? — Ele se encheu de emoção ao falar o nome do país.

— Sim, estou na Noruega. Na verdade, nós estamos, e, chega dessa brincadeira idiota, eu quero ir embora. — Respondi, incrédula e com a voz trêmula.

— Nós não estamos na Noruega. — Ele respondeu, fazendo-me trancar a respiração, no início de um desespero eminente, e observá-lo mesmo sob a máscara. — Estamos em Adamantem, em Cothür, Reino Lapidado. Você é da Noruega? Conhece Asphardi?

Senti um arrepio cobrir os pelos do meu corpo, e uma náusea se formar em meu estômago. O homem realmente parecia falar a verdade, mesmo sob a loucura de tudo isso. As roupas, o sangue, como tudo isso poderia acontecer? Uma pessoa normal seria capaz de derrotar tantos homens tão facilmente assim?

— Não… Na verdade, li histórias fantasiosas sobre o lugar, mas nunca pude saber se realmente existiu. — Respondi e quase caí, mas ele me segurou pelos braços com força.

— Seu corpo está congelando. Seja quem for, não pode ficar, tem que ir embora, há muitas criaturas perigosas em Golvo. — Ele segurou o meu braço e começou a puxar-me para andar.

— Eu não sei onde estou! Como posso voltar se nem sei como vim parar aqui? — Comecei o início de mais um desespero, gritando, mas ele tampou a minha boca com a sua mão enluvada apenas nos três dedos onde se encaixavam nas flechas.

— Pare de gritar! Parece uma criança tola e perdida. Qualquer criatura é capaz de escutar esse seu desespero… nauseante. — Ordenou desdenhoso e largou a minha boca. — Venha.

— Me solte! — Gritei. Quem ele pensa que é? — Eu não te conheço! Mesmo que eu esteja precisando de ajuda, você é um assassino louco que acabou de matar oito homens num sopro!

Ele resmungou algo baixo, para que eu não escutasse, fazendo-me arregalar os olhos.

— O que você disse?

— Eu disse você fala demais, é tagarela.

Abri a boca, perplexa.

— O quê! — Gritei, mais uma vez.

— Mandei você parar de gritar! — Ele disse e o seu “r” vibrou muito mais do que antes, devido a raiva.

— Eu não pedi a sua ajuda! — Respondi, empurrando-o e ele não deu a mínima.

— Está bem. — Ele deu de ombros e se virou, pronto para ir embora. — Adeus.

Ele voltaria. Ele não seria tão cruel em me deixar sozinha, no frio, envolta de corpos mortos e sangrentos. E quando se passaram alguns longos minutos, e o vi sumindo nas árvores, sua capa negra esvoaçando pelas últimas vezes diante dos meus olhos, abri a boca e apertei os braços para tentar me aquecer.

— Espere! — Tentei correr, mas caí na primeira tentativa. — Espere…

Ele cessou imediatamente e ficou parado entre duas árvores grandes, hesitando em olhar para trás. Vi que encheu o pulmão de ar e soltou, tentando manter a paciência e finalmente se entregando, olhando para trás. Vi sua máscara negra observar-me mesmo que fosse completamente estranho. Ele voltou.

— Você parece uma criança barulhenta!

Abri a boca para responder-lhe, mas em vez disso, acertei um forte tapa em sua máscara, o que fez com que a minha mão doesse mais do que o normal. Vi que o meu tapa não teve efeito em seu ser, ele nem sequer mexeu a cabeça só um pouquinho para o lado. Estranhamente senti as minhas pernas perderem a precisão e tombei, afundando o meu joelho na neve. O assassino de negro caminhou para os corpos mortos e desprendeu algumas peças de roupas como uma túnica, um par de bota que, com certeza, ficariam grandes em meus pés e uma calça de couro, as quais um dos homens, o mais magro possível, vestia.

— Pegue. — Ele se abaixou, entregou as roupas e depois, desamarrou a manta grossa dos seus ombros. Passou o tecido pelas minhas costas, prendendo-o em meu pescoço e cobrindo a minha cabeça com o capuz. — Fique perto de mim, não se perca. Não voltarei para salvá-la de novo. Você não me conhece. Não faça perguntas, não sou tão paciente quanto parece, e sou mais perigoso do que você possa imaginar.

— Você é um estúpido! Assassino e estúpido! Eu não preciso da sua ajuda, só quero que me mostre o caminho de volta e facilite para mim. Eu sei me cuidar sozinha!

— Sabe tão bem que precisou da minha ajuda. — Respondeu, puxando o meu braço para começarmos a andar mas eu o puxei de volta pro meu corpo, ajeitando o capuz preenchido por um cheiro proeminente, forte, provavelmente o desse assassino grosseiro.

Tenho que admitir que o cheiro é bom.

— Pare com isso, vai morrer se ficar aqui sozinha. — Ele disse e tirou uma corda dos seus cinturões para prender-me em seu corpo. — Está muito escuro, seus olhos terrestres não são capazes de enxergar com tanta nitidez. — Amarrou em minha mão e prendeu-a na sua. Balançou-a no ar para que eu pudesse observar com clareza, como se, realmente, eu fosse uma criança estúpida. — Isso é para você não se perder. Vamos — balançou a cabeça mascarada para o lado —, vou tirá-la daqui.

Apenas concordei acenando com a cabeça me encolhendo na sua capa negra e grande que começava a me aquecer, já que tivera me entregado com o calor aconchegante do seu corpo, o mesmo que analisei enquanto caminhava em minha frente. Ele era alto e muito forte, não teria chances em uma luta corpo-a-corpo. Não posso nem especular essa ideia, ele cortaria a minha garganta facilmente, como fez com os oito homens que tentavam me ferir.

Foi aí que comecei a perceber que tudo isso é real. Notei o seu jeito de andar, sua postura firme e sua capa que estava comigo, o seu cheiro, seu toque. É tudo real, mas como isso pode acontecer comigo? Como isso é possível? Senti novamente as tonturas chegarem em meu corpo e novamente caí de joelhos no lembrar dos acontecimentos passados. O que será que Chelsea está pensando? Ela deve estar me procurando por todos os lados.

Mal percebo quando ele encosta suas duas mãos em minhas bochechas, fazendo-me observar a sua máscara sombria.

— Levante-se. — Ordenou. — Não podemos parar aqui.

Acenei com a cabeça e ele me ajudou a ficar de pé novamente. De certa forma, me sentia melhor mas sei que o meu corpo não está acostumado com esse tipo de frio, não aqui, nesse lugar que ele chama de Adamantem. Algo parecia sobrenatural, sinistro, e arrepiava a minha pele a cada passo que eu dava.

Preciso de respostas, preciso sair daqui imediatamente. Sinto que vou explodir com tantas perguntas. Encolhi-me mais e sem que eu percebesse, estava próxima e depois, escorada em seu peito, acompanhando os seus passos e podendo sentir até mesmo os seus batimentos cardíacos. Ele não se importou. E incrivelmente me senti mais aquecida, então, forcei mais o meu rosto para o seu peito, com o intuito de livrar os meus lábios do congelamento hediondo.

— Seu nome, qual é o seu nome? — Questionei, mas ele me ignorou e sacou sua espada para cortar algumas vegetações, e logo balançou a corda amarrada em minha mão. — É Ethan, Ethan Haavik, não é?

Então ele parou e fez com que eu desprendesse a minha cabeça do seu peito.

— Como sabe o meu nome? — Sussurrou, e cedeu novamente as minhas necessidades de me aquecer em seu corpo forte.

— O estudei, sei algumas coisas sobre você. Mas não tenho certeza se as lendas são verdadeiras.

— Sabe algumas coisas sobre mim? — Sua voz mudou o timbre, começando a ficar raivosa. — Você estava mentindo!

— Não! Eu não menti! Sei que é um assassino, e que veio de Asphardi, mas as informações acabam aí. Não sei qual foi a causa da sua vida, muito menos sei o que você é com exatidão. Li que você era um deus que bebia sangue inocente, talvez só um caçador ou assassino brutal que exterminou centenas de pessoas. Ou que você era um demônio impiedoso. Um rebelde que lutava pelo seu povo oprimido. Há muitas versões diferentes sobre você, mas não me parecem ser tão reais assim. Me parece um homem que está sofrendo, não um homem maldoso. — Respondi, com desdém. — E se você é, por que não me mata logo?

— Eu não mato quando não preciso. — Respondeu desdenhoso.

— Então por que se esconde em uma máscara e nessas roupas negras? — Insisti e percebi que ele começou a ficar impaciente.

Balançou a corda novamente e hirtou a cabeça para voltarmos a andar.

— Você não me conhece — disse —, sem perguntas. — Repetiu e bufei.

— Pode pelo menos me dizer aonde está me levando?

Sem me responder, ele se agachou, apoiando a braço que sustentava a espada em seu joelho. Arrastou a outra mão livre e enluvada sobre a neve morosamente, e depois, com um pouco da massa gélida entre os dedos, a cheirou. Ethan se levantou e encarou as árvores, o chão novamente e depois, o céu. Suspirou. Segurou uma folha e também a cheirou, completamente fora de si, concentrado em descobrir alguma coisa que eu seria incapaz.

— Vamos. — Puxou brutalmente a corda para que eu continuasse a caminhar e quando menos esperei, estávamos dentro de um canal rochoso, úmido e cheio de árvores. Um esconderijo. Na verdade, parecia nitidamente uma toca de lobo.

Mentalmente fiquei me perguntando como ele a encontrou com tanta facilidade, nessa escuridão. Lembro-me de ter lido que fora um caçador habilidoso, mas sei que era na Noruega, com certeza isso influenciou o seu conhecimento amplo aqui, nesse lugar chamado Adamantem.

— Vamos descansar aqui. É perigoso demais continuar uma trilha à noite pela Floresta do Golvo. — Disse e guardou a espada na bainha do quadril, ajeitando o arco preso nas costas. — Continuamos no amanhecer, a deixarei no vilarejo mais próximo.

Balancei a cabeça, sem entender absolutamente nada do que ele estivesse falando, mas me permiti ficar em silêncio já que não aguentava mais o frio mesmo que, por ora, tivesse diminuído graças às roupas que me cobriam.

— Estou congelando… — Murmurei, com dor até mesmo nas palavras. — Não estou acostumada com este frio, meus pulmões estão doendo muito. — Bati os dentes depressa, soltando mais fumaça de frio.

Ele suspirou.

— Pelo visto não é daqui mesmo. Farei uma fogueira para nos aquecer. Mas chamará a atenção de criaturas perigosas. — Disse, e quebrou um arbusto com as mãos e os pés, agarrando uns gravetos secos para começar uma fogueira. — Ficarei acordado, como vigia. Você pode descansar.

— Obrigada. — Agradeci e me encolhi no chão, como um feto.

Vi que o meu corpo estava cada vez mais gritando, pedindo por socorro. Cada pedacinho, cada cantinho, estremecia como se eu estivesse ao ponto de entrar em óbito numa agonia aterrorizante. Mesmo com a fogueira, com as roupas, a capa negra de Ethan, ainda estava entrando em estado de solidificação. Então levantei um pouco a cabeça para poder observar-lhe enquanto se concentrava em sua fogueira que queimava com violência.

Ele estava com os dois braços apoiados nos joelhos, observando uma adaga que tinha a nomenclatura do seu nome “Haavik”, de empunhadura vermelha, e um grande diamante que fazia os meus olhos brilharem, no pomo. Sem nem sequer se importar com o que pudesse acontecer. Sei que não confiava em mim, e muito menos eu confiava nele mesmo que precisasse da sua ajuda para sair daqui, era tudo o que me restava. Talvez este fosse o meu destino, ficar ao lado dele, como eu desejei no museu. Isso é ridículo.

Então ele percebeu que eu o admirava e disparou o olhar em minha direção também. Senti um arrepio percorrer o meu corpo quando encarou-me, mesmo que não pudesse observar os seus olhos, algum encanto emanava pelas orbitais vazias da sua máscara.

— Se não pretende me matar, poderia, por favor, me aquecer com o calor do seu corpo? — Questionei esperançosa de que isso fosse a última solução viável para me livrar do frio. — A melhor forma para se aquecer do frio, é com calor humano…

Insisti e então ele se levantou, guardou a adaga na pequena bainha de um dos seus cinturões e caminhou para perto de mim, criando um suspense arrepiante em minha pele enquanto retirava o peso de alguma de suas armaduras, largando-as no chão. O cerquei com os meus olhos até que se deitou ao meu lado e me virei de frente para ele.

— Tem certeza?

— Anda logo, Assassino Haavik! Não quero mudar de ideia! — Ordenei enquanto abria a capa para nos aquecermos.

Por trás, ele esticou as mãos para me segurar fortemente. Passou o seu braço direito por baixo do meu pescoço como um travesseiro enquanto o esquerdo ficava por cima da minha cintura, despertando mais arrepios de êxtase em meu corpo, germinando uma adrenalina estranhamente boa demais. Não me importei com o seu jeito bruto quando apertou-me com força contra o seu corpo, para aquecer-me do frio.

Sua temperatura era exorbitante comparada à minha.

— Não ouse tentar tirar a minha máscara. Não hesitarei em cortar a sua garganta.

— Eu digo o mesmo! — Arqueei as sobrancelhas, me aconchegando em seu peito.

Sinto minha respiração cada vez mais leve, uma sensação de alívio deixando-me mais à vontade de colocar as minhas pernas por baixo de suas coxas, enquanto sentia-me gradualmente aquecida. Ao completar a primeira hora da madrugada, meu sono é interrompido por algum barulho estranho, pareciam galhos se quebrando. Logo depois, escutei um uivado agressivo e tive certeza que havia lobos por perto. Sentei-me e percebo que a fogueira está apagada e que Ethan não está mais ali. Uma agonia amargurosa começou a preencher o meu corpo, e um sentimento de culpa por ter acreditado nesse assassino idiota. É óbvio que na primeira oportunidade, ele me largaria para virar comida de lobos selvagens, não tem o porque eu pensar que um homem como ele, é altruísta.

Começo a me levantar e percebo que há uma espada no chão, era a espada dele. Então ele a esqueceu? Ou realmente foi embora e esqueceu a espada aqui? Ele seria tão estúpido em conseguir esquecer sua espada? Foi então que vi naquela escuridão olhos amarelos se ascenderem misteriosamente e quasse tropecei quando dei um passo para trás, com um assombro entre os lábios. Existiam quatro lobos que se aproximavam rosnando em minha direção, com cuidado.

Tentei acender a fogueira, mas não consegui. Não sei como fazer isso.

Dou mais alguns passos para trás, a fim de alcançar a espada no chão, ajeitando a capa em meu corpo e quando consigo finalmente chegar perto o suficiente, agarrei a sua espada que parecia pesar toneladas e corri desengonçadamente, sem saber o que fazer, prevendo minha morte evidente, da pior forma possível. E foi nesse momento que uma sombra apareceu e abraçou o animal por trás, torcendo seu pescoço brutalmente, fazendo-me fechar um olho pelo som aterrorizante do seu osso estalando, enquanto os outros dois foram em sua direção para estraçalhar a sua carne.

No impulso, perfurei uma das patas do lobo para que largasse o homem.

Ele arrancou uma adaga do cinturão e dividiu a barriga de mais um dos lobos, fazendo suas tripas escorregarem para fora, sobrando apenas dois que grunhiram quando arrancou o arco das costas e atirou duas flechas seguidas, uma no olho esquerdo de cada um. Observou os lobos mortos ao redor do nosso corpo, enquanto eu ainda me apoiava numa árvore, com uma imensa vontade de vomitar. Então não me segurei e soltei tudo num arbusto, tentando fazer com que ele não me visse nesse estado.

Ethan se aproximou do meu corpo e pelos seus passos estava furioso. Qual é a probabilidade de ele cortar a minha garganta agora com minha atitude principiante? Fiquei com vontade de vomitar de novo quando o vi limpando algumas tripas de sua armadura de couro, remugando algo baixo para que eu não escutasse.

— Você está bem? — Questionou, arrancando a espada das minhas mãos para guardá-la na bainha. — Se machucou?

— Estou bem. — Balancei a cabeça e levantei o dedo polegar, como um joinha. Ele não entendeu.

— Fico feliz. Mas, na próxima vez, me peça permissão para usar a minha espada.

— Ok! Na próxima vez eu digo: olá senhora espada, eu poderia gentilmente usar-lhe para matar alguns lobos? Sabe, é porque o assassino idiota que estava inutilmente me ajudando, saiu para fazer não sei o quê! — Falei cinicamente, revidando a resposta irritada.

— Você podia ter se machucado! — Respondeu. — Isso não é brincadeira, está dependendo da minha boa vontade para sobreviver!

— Eu agi por impulso, não sabia o que fazer…

— Está bem… Eu peço desculpas por ter saído, estava procurando algo para que você pudesse comer.

— Tudo bem, eu agradeço a sua boa intenção… — Respondi e balancei a cabeça, enquanto ele se aproximou.

— Pegue. — Entregou um cantil com água e jogou um saco de algodão puído com algumas pequenas frutas que eram duras e tinham a casca negra. Estranhas e pareciam venenosas. Mas decidi apostar e confiar nele, mesmo que fosse loucura. — Vai precisar disto também. — Entregou-me uma faca pequena que estava presa em um dos seus cinturões junto com muitas outras, para que eu pudesse me defender.

— Certo. — Respondi enquanto ele se sentou, um pouco entristecido. — Sara…

Ele me encarou enquanto começava a acender a fogueira na cova novamente.

— O meu nome é Sara. Sara Querina.

Ele soltou um suspiro, um pouco mais animado do que os anteriores e eu não resisti ao sorrir e me sentar ao seu lado para poder comer as frutas.

— Isso não é venenoso, é?

— Se eu quisesse te matar, eu já teria feito isso. — Respondeu, com desdém.

Então eu ri.

— Você não vai comer? — Questionei, esperançosa para que tirasse a máscara e eu finalmente pudesse ver o seu rosto que tanto esconde. Ele deve ser feio demais para esconder-se em uma máscara.

— Não estou com fome. — Respondeu e continuou concentrado novamente naquela mesma adaga de empunhadura vermelha e nomenclatura Haavik. Como se toda a sua vida estivesse ali, naquele pequeno pedaço de prata.

— Esperto demais… — Respondi, semicerrando os olhos. — Você deve ser a coisa mais medonha desse mundo. Deve ser aterrorizante! A criatura mais feia de todo o universo.

Ele me encarou e guardou a adaga. Não pude saber qual expressão estava marcada em seu rosto, era ridículo demais ficar tentando adivinhar o que estava demonstrando por trás dessa máscara sinistra.

— Sim, eu sou a criatura mais feia de todo o universo, e é por isso que vou continuar assim.

Bufei.

De certa forma, eu estava me sentindo segura perto dele. Sei que ele poderia me proteger de qualquer perigo. Afinal, ele é o Ethan Haavik, a lenda que narrava os livros e que eu tanto queria conhecer. Mas e se tudo isso for apenas um sonho bobo? As sensações são reais demais para ser um sonho. Eu sabia que estava vivenciando cada momento ao lado desse homem misterioso. Não era, de forma alguma, um sonho. Então a preocupação começou a embrulhar o meu estômago novamente e me veio uma ideia estranha, sobre como eu pudesse voltar para casa, de volta para Chelsea. Se não estou sonhando, a única forma de voltar é morrendo? Se eu morrer, serei capaz de voltar?

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