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RAFAELA
Mais um feriado de Corpus Christi desenrolava-se, e celebrar esse dia com toda a família reunida já era um ritual estabelecido. Contudo, de maneira abrupta, tudo mudou. Aquela data se tornou uma das piores da minha vida, e, sinceramente, eu não sabia como superaria a perda do meu pai. Quem poderia imaginar que o perderia em um terrível acidente de carro? Desolada, retornei para casa após o ato fúnebre. "Sem dúvidas, o funeral dele ficará marcado para sempre na minha memória!", ponderava. A imagem do caixão descendo à terra me atormentava, um peso esmagador no meu peito. A polícia suspeitava que aquele misterioso acidente tinha motivações criminosas, iniciando uma investigação para verificar a fundação dessa teoria. Eu acreditava firmemente que os investigadores estavam certos. Certamente, aquele acidente poderia ter sido criminoso, dado o fato de meu pai ser um excelente motorista, incapaz de perder facilmente o controle do carro. Talvez sua posição poderosa como chefe do departamento de investigação da polícia federal tenha contribuído para a tragédia. "Tenho certeza que esse cargo pode ter levado meu pai à morte!", pensei, enquanto lágrimas quentes rolavam pelo meu rosto. Ele havia feito muitos inimigos ao longo dos anos, pessoas dispostas a qualquer coisa para calá-lo. Minha mãe também estava no carro e, felizmente, sobreviveu, mas estava internada em coma fisiológico. O médico mencionou que a pancada que ela levou na cabeça quase foi fatal. Ela ainda não sabia que havia perdido o homem que mais amava.
A cada visita ao hospital, meu coração se apertava. Observava sua figura frágil na cama, rodeada por máquinas que a mantinham viva, e desejava poder trocá-la de lugar. A casa, antes cheia de risos e conversas, agora estava mergulhada em um silêncio ensurdecedor. Fotos da nossa família feliz olhavam para mim das paredes, cada uma trazendo uma onda de memórias dolorosas. Precisava ser forte, não só por mim, mas pela minha mãe, que precisaria de mim quando acordasse. As lembranças do último feriado de Corpus Christi pareciam agora uma cruel ironia. Naquele dia, a cidade estava vestida de cores vibrantes e celebrações, mas agora, tudo se tingia de um cinza sombrio e pesado. Enquanto eu tentava lidar com a dor esmagadora da perda, as perguntas sobre as circunstâncias do acidente pesavam incessantemente em minha mente, como um fantasma que se recusava a ser exorcizado. Cada detalhe do funeral estava gravado em minha memória, desde as condolências dos amigos, carregadas de pesar e empatia, até o som solene e ritmado dos passos dos carregadores de caixão, que parecia marcar o batimento de um coração partido.
A incerteza sobre a natureza do acidente apenas intensificava minha angústia, como uma ferida que não parava de sangrar. Eu me encontrava mergulhada em um turbilhão de emoções, uma montanha-russa sem fim de dor, raiva e incredulidade, lutando para aceitar que o meu pai, um homem íntegro e dedicado à justiça, havia sido tirado de nós de maneira tão abrupta e inexplicável. Ele era o pilar da nossa família, a rocha sobre a qual nos apoiávamos, e sua ausência era um abismo que eu não sabia como atravessar. Enquanto aguardava notícias sobre a investigação policial, que se arrastava como uma eternidade, eu me via revivendo os momentos felizes que compartilhamos como família. As risadas durante os jantares, os conselhos sábios que ele sempre tinha na ponta da língua, os abraços calorosos que agora pareciam tão distantes. Cada lembrança era uma faca de dois gumes, trazendo tanto conforto quanto dor. Minha mãe, ferida pelo acidente, lutava pela própria recuperação, e eu estava ciente que ela dependia de mim mais do que nunca. O peso da responsabilidade recaía sobre meus ombros, um fardo que eu carregava com dificuldade, mas também com determinação. Eu me via confrontada não apenas com a perda irreparável, mas também com o desafio de manter as forças intactas diante daquela circunstância. No silêncio da noite, quando tudo parecia mais escuro e a ausência dele mais palpável, eu jurava a mim mesma que encontraria respostas, que descobriria a verdade sobre o que realmente aconteceu.
E, de alguma forma, encontrar a paz que parecia tão inalcançável naquele momento. A partir daquele dia, éramos apenas eu e meu irmão Guilherme. Com vinte e seis anos, ele sempre foi uma figura misteriosa, mas ainda assim, um bom irmão. Embora não fôssemos muito próximos, ele era o único familiar que me restava. Seu pior defeito sempre foi querer ser protetor além do limite, mas eu não o julgava, considerando sua posição como o mais velho. Naquele momento, ele era meu único apoio. Descobri recentemente que Guilherme seguia os passos de nosso pai, trabalhando para a polícia federal. Ele pensava que eu não sabia, e eu preferia que continuasse assim. Nunca concordei com seu envolvimento no mundo da investigação, especialmente porque antes da morte de nosso pai, nossa família sofria constantes ameaças. No entanto, Guilherme já era um homem adulto, e eu respeitava suas escolhas.
Após a morte de nosso pai, Maia, noiva de Guilherme, iria morar conosco, oferecendo apoio emocional. A presença dela trouxe um novo calor à casa que antes parecia vazia e silenciosa. Sentia-me grata por tê-la por perto, mesmo que a sombra dos perigos que nosso pai enfrentava pesasse sobre mim. Eu me sentia perdida, parada no tempo, sem saber o que o futuro me reservava. Dias e noites de angústia se sucediam, chorava em um profundo silêncio. Somente eu sabia a magnitude da dor que sentia. Não seria uma tarefa fácil, pois nunca tinha ficado longe dos meus pais por muito tempo. Estava acostumada a não ter Guilherme por perto, pois ele nunca tinha o costume de permanecer em casa. Sua presença era estranha quando decidia voltar. As paredes da casa pareciam ecoar com a ausência do riso de meu pai e dos passos animados de minha mãe.
O ambiente que antes irradiava calor e segurança agora se tornava uma sombra de lembranças felizes. Guilherme, mergulhado em sua própria dor, tornou-se mais reservado do que nunca. Seus olhos, outrora cheios de determinação, agora refletiam uma tristeza profunda. Eu podia sentir que, assim como eu, ele carregava o peso da incerteza sobre a morte de nosso pai. Em meio a esse turbilhão emocional, a presença de Maia trazia uma sensação de normalidade à casa. Seu cuidado e compreensão suavizavam um pouco a dor que todos compartilhávamos. No entanto, a sombra da investigação pesava sobre nós, e eu não conseguia ignorar a ansiedade que crescia cada vez que Guilherme saía para cumprir seus deveres profissionais. Ainda assim, éramos uma família ferida, mas unida pela tragédia. O futuro permanecia incerto, e eu, mesmo perdida em meu próprio luto, estava determinada a tentar sobreviver à minha tormenta. A jornada seria difícil, mas eu encontraria forças onde pudesse para enfrentar os desafios que estavam por vir.
Dois meses após o funeral…
Dois meses haviam se passado desde que perdi meu pai. A dor ainda era profunda, uma ferida aberta que parecia nunca cicatrizar completamente. Às vezes, mal conseguia sair da cama, envolvida pela tristeza que me consumia. Minha mãe continuava internada, sua figura frágil na cama de hospital era uma tristeza constante que eu relutava em enfrentar. As poucas vezes que reuni coragem para vê-la naquela situação foram angustiantes. Um dia, o neurocirurgião responsável pelo seu caso veio até mim, percebendo meu estado de pânico.
— Olá, Rafaela. Fique tranquila, logo ela acordará! — Ele sentou ao meu lado, tentando me confortar.
— Você pode me garantir isso? Já perdi meu pai, não sei se tenho estrutura para suportar mais uma perda! — Minhas lágrimas escorriam livremente pelo rosto.
— Eu não diria para você ficar tranquila se não soubesse que ela vai acordar. No entanto, não posso precisar o dia e a hora. Pode ser amanhã ou daqui a um ano. — Ele tentou explicar com calma. — Recomendo que não venha vê-la com tanta frequência, isso está afetando você negativamente. Prometo ligar assim que ela acordar. Tente mudar um pouco sua rotina, busque distrações.
— Distrações? Como posso fazer isso? — Suspirei, sentindo-me perdida.
— Seja criativa. Encontre algo que te faça bem. — Ele se levantou e saiu do quarto.
As palavras do médico ecoaram na minha mente enquanto eu contemplava o vazio. A ideia de me distrair parecia impossível diante da intensidade da minha dor. No entanto, aos poucos, comecei a considerar suas palavras. Talvez encontrar algo que me proporcionasse um alívio temporário fosse possível. Num lampejo, sentei-me na beira da cama, permanecendo por mais algum tempo ao lado da minha mãe antes de decidir que era hora de ir embora. Naquela manhã de segunda-feira, após retornar da visita ao hospital, fui direto para casa. Ao entrar no meu quarto, deitei-me e cobri minha cabeça com o edredom, mergulhada em pensamentos.
— Estou decidida! — Exclamei em voz alta para mim mesma. — O médico está certo; preciso mudar minha rotina. Não posso mais ficar trancada no quarto o dia todo, correndo o risco de cair em depressão.
Levantei-me da cama com determinação, olhei no espelho e passei um batom clarinho. Desci as escadas com passos decididos e fui até a cozinha para tomar o café da manhã. Servi-me com um copo de leite gelado e observei o jornal do dia sobre a bancada. Peguei o mesmo para dar uma olhada, sentei-me à mesa, cortei um pedaço de bolo de chocolate e comecei a folhear as páginas. Distraída com algumas fofocas das celebridades locais, meus olhos atentos pararam na sessão de vagas de emprego. Ao percorrer as opções disponíveis, deparei-me com uma que me interessou bastante; o anúncio dizia: “Contrata-se acompanhante.” Sem experiência anterior, pensei que cuidar de um idoso não seria difícil. "É provável que precise dar banho, alimentar e fazer companhia até que algum familiar chegue!", pensei, sentindo uma pontada de nervosismo e empolgação ao mesmo tempo. Mal terminei de comer, peguei minha bolsa e já estava prestes a chegar à porta quando a voz do Guilherme me interrompeu:
— Aonde você vai? — Ele perguntou, curioso.
— Vou ver uma vaga de emprego! — Tentei ser breve.
— Vou levar você; depois do que aconteceu com o nosso pai, não quero que fique andando sozinha por aí! Seu “modo super irmão” foi ativado. Após a morte do nosso pai, Guilherme ficou protetor além do necessário, o que estava me irritando.
— Certo, então vamos logo, não quero me atrasar! — Revirei os olhos, tentando disfarçar meu desconforto por seu cuidado excessivo.
— O correto seria você ficar em casa. O dinheiro que nosso pai deixou é suficiente para nós! — Ele tentou me convencer a desistir, mas eu já sabia que ele não concordaria.
— É mesmo, querido irmão? E por que você continua tentando entrar para o departamento de investigação? O que nosso pai deixou não é suficiente? — Perguntei com ironia, vendo sua expressão se contrair de irritação.
— Não misture as coisas, Rafa. Minha situação é complicada e delicada! — Ele respondeu com as sobrancelhas franzidas.
— Isso é sério, Gui? Eu não vou discutir agora; preciso me distrair e quero muito essa vaga. Vamos logo ou irei sozinha! — Decidi, abrindo a porta de casa para sair.
Percebendo que poderíamos passar o dia discutindo, ele soltou um longo suspiro de desapontamento, não insistiu mais e simplesmente pegou as chaves do carro, dirigindo em silêncio até o local desejado. O ambiente no carro estava tenso, com sentimentos não ditos pesando sobre nós. Cada rua percorrida parecia uma extensão da distância emocional que se formava entre mim e meu irmão. O luto e a frustração permeavam o ar, e o silêncio entre nós era tão denso quanto a tristeza compartilhada.
***
Ao chegar no local indicado no anúncio, senti uma certa desconfiança. Esperava encontrar o endereço de uma casa comum, mas diante de mim havia um imenso galpão. O clima era sombrio e pesado, as sombras das árvores dançavam ao ritmo do vento, criando um cenário quase assustador. Gui estacionou o veículo e me analisou com olhos que refletiam a mesma apreensão que eu sentia. Antes que ele tentasse me convencer a desistir, abri a porta do carro rapidamente, sentindo o frio do metal na palma da mão.
— Ei, pode ficar esperando aqui. Não preciso que me acompanhe! — Disse, tentando manter a calma enquanto apoiava-me na janela para trocar algumas palavras.
— Certo, vai lá, mas se demorar muito, vou atrás de você! — Respondeu, com um tom ameaçador na voz que me fez engolir seco.
Revirei os olhos e caminhei em direção à porta de entrada. A cada passo, o som das minhas botas ecoava pelo espaço vazio, aumentando a tensão que sentia. Ao empurrar a porta pesada, fui recebida por um ambiente estranhamente acolhedor, contrastando com o exterior. Uma mulher de cerca de cinquenta anos, com um sorriso que não chegava aos olhos, aproximou-se. Seu cabelo grisalho estava bem arrumado, e suas roupas indicavam uma certa formalidade.
— Em que posso ser útil, querida? — Perguntou ela, com um tom simpático que me fez sentir um pouco mais à vontade.
— Oi, meu nome é Rafaela Oliveira! Vim pela vaga de acompanhante! — Expliquei, e percebi seu olhar se intensificando enquanto me observava atentamente.
— Tem certeza disso? Você é tão jovem e bonita! — Sua surpresa era evidente, e aquelas palavras me deixaram um tanto confusa, como se houvesse algo que eu não soubesse.
Antes que eu pudesse responder, ela continuou:
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