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Tyron fitava o caixão de mogno polido enquanto as últimas pessoas deixavam a capela vitoriana em Kensington. O perfume adocicado das flores não conseguia mascarar o gosto amargo da verdade que agora o consumia. Richard colocou a mão em seu ombro, num gesto silencioso de apoio, enquanto Salvio permanecia alguns passos atrás, mexendo nervosamente em seu relógio Patek Philippe.
"Quinze anos de casamento", murmurou Tyron, sua voz rouca. "Quinze anos de mentiras."
O envelope em seu bolso pesava como chumbo - fotos, mensagens, registros de encontros clandestinos em hotéis de luxo em Mayfair e Knightsbridge. Elena, sua falecida esposa, havia construído uma vida paralela tão elaborada quanto os eventos beneficentes que costumava organizar no British Museum.
"Vamos sair daqui", sugeriu Salvio, finalmente quebrando seu silêncio. "Conheço um lugar discreto em Chelsea onde podemos beber algo forte."
Richard assentiu em concordância. "Você não precisa lidar com isso sozinho, meu amigo."
Tyron ajustou sua gravata de seda italiana, um presente dela. Cada objeto agora carregava um novo significado, uma nova dor. Os corredores do poder em Westminster, onde transitava, pareciam agora um palco vazio, onde sua vida havia sido apenas mais uma performance bem ensaiada.
"Sabem o que é mais irônico?", disse Tyron, enquanto caminhavam em direção à sua Bentley. "Eu controlava impérios, manipulava mercados, dobrava políticos ao meu favor... mas não consegui ver o que acontecia debaixo do meu próprio teto."
O motorista abriu a porta do carro enquanto uma típica garoa londrina começava a cair. O céu cinzento sobre o Tamisa parecia espelhar perfeitamente o estado de espírito dos três homens que embarcavam no veículo luxuoso, cada um carregando seus próprios segredos e arrependimentos.
O ambiente exclusivo do clube privado em Chelsea envolvia os três homens em sua atmosfera de madeira nobre e couro envelhecido. Tyron girava o copo de cristal entre os dedos, observando o líquido âmbar do Macallan dançar contra a luz suave. Seu terceiro copo já estava pela metade.
"Aquele maldito instrutor de tênis", rosnou ele, sua voz começando a ficar mais áspera. "E pensar que eu mesmo paguei as aulas."
Richard e Salvio trocaram olhares preocupados enquanto Tyron virava mais um gole generoso. Suas mãos, normalmente firmes ao fechar contratos multimilionários, agora tremiam levemente ao pousar o copo na mesa.
"E aquele idiota do conselho da empresa... James. Agora entendo seus sorrisos durante as reuniões." Tyron socou a mesa, fazendo os copos tilintarem. "Ela transformou minha vida num circo, e todos sabiam, menos eu."
O quarto copo de Macallan foi servido, o líquido precioso escorrendo pela garrafa como os segundos de uma ampulheta invertida. A raiva de Tyron crescia proporcionalmente ao nível de álcool em seu sangue, seus olhos antes calculistas agora faiscavam com uma fúria contida.
"Sabe o que mais me enfurece?" Sua voz estava mais alta agora, atraindo olhares discretos dos outros frequentadores. "Não foram só as traições. Foi a humilhação. Cada sorriso falso, cada 'te amo' mentiroso, cada jantar em família enquanto ela..." Ele engoliu mais um gole, deixando a frase morrer no ar.
Salvio inclinou-se para frente, tentando manter a voz baixa. "Tyron, talvez devêssemos..."
"Não!", cortou Tyron, seu punho encontrando novamente a mesa. "Vocês não entendem. Eu construí um império. Pessoas tremem ao ouvir meu nome em reuniões de conselho. E ela... ela fez de mim um fantoche."
O quinto copo de Macallan foi derramado, cada gota parecendo alimentar não apenas sua embriaguez, mas também uma resolução sombria que começava a se formar em seus olhos. O homem que sempre manteve o controle estava perdendo as rédeas, e seus dois amigos podiam apenas testemunhar enquanto a tempestade se formava.
Um homem se aproximou da mesa com passos seguros, seu terno Savile Row impecavelmente ajustado. Marcus Blackwood, 38 anos, sócio de um dos maiores escritórios de advocacia de Londres. Um dos nomes daquele maldito envelope.
"Tyron, meus sinceros pêsames", disse ele, com aquela voz modulada de advogado, estendendo a mão.
Tyron fixou os olhos no copo, seus dedos apertando o cristal com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram. Richard e Salvio instantaneamente se aproximaram, tensos como cordas de violino prestes a estourar.
"Sua audácia é impressionante, Blackwood", Tyron murmurou, sua voz perigosamente baixa, sem erguer o olhar.
Marcus hesitou, a mão ainda estendida no ar. "Perdão?"
"Não se faça de idiota." Tyron ergueu finalmente os olhos, vermelhos pela mistura de álcool e fúria. "O Claridge's, quarto 506. Toda terça-feira às quatro. Sua preferência por champagne Krug e morangos."
O rosto de Marcus empalideceu visivelmente. Salvio segurou firmemente o braço de Tyron, que já começava a se levantar.
"Eu sugiro", Richard interveio, sua voz cortante como gelo, "que você saia daqui. Agora."
"Tyron, eu..." Marcus começou, recuando um passo.
"FORA!" O rugido de Tyron ecoou pelo ambiente refinado, silenciando todas as conversas. O copo em sua mão voou em direção à parede, explodindo em mil fragmentos cristalinos, o precioso Macallan escorrendo como sangue pela parede.
Richard e Salvio praticamente arrastaram Tyron de volta à cadeira, enquanto Marcus batia em retirada apressada. Os outros clientes fingiam não notar a cena, mas seus olhares furtivos traíam a curiosidade mórbida.
"Me soltem", Tyron rosnou, sua respiração pesada. "Aquele verme... teve a coragem... depois de tudo..."
"Não aqui, meu amigo", Salvio sussurrou, ainda mantendo o aperto firme. "Não assim."
O garçom aproximou-se discretamente com uma toalha para limpar os cacos, mas Richard o dispensou com um gesto. Tyron afundou na cadeira, seu corpo tremendo de raiva contida, enquanto gotas do Macallan continuavam seu caminho descendente pela parede, como lágrimas douradas de uma tragédia em desenvolvimento.
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