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No dia do meu casamento, enquanto eu encarava meu reflexo num vestido que valia uma década de salários, meu celular vibrou. Era uma notificação do Instagram. Jandir, meu noivo, acabara de postar uma foto no aeroporto de Paris com a legenda: "Foda-se as correntes. Buscando a liberdade." Ele não estava atrasado. Ele tinha fugido, deixando-me para enfrentar quinhentos convidados da elite e uma fusão bilionária que dependia daquele "sim". Meu pai não se importou com minha humilhação. Ele invadiu o quarto em pânico, pronto para me vender para Péricles, o primo asqueroso e bêbado de Jandir, apenas para salvar o acordo financeiro. Naquele momento, matei a garota romântica dentro de mim. Se eu tivesse que ser vendida, seria para o dono do dinheiro, não para as sobras. Levantei a cabeça, enxuguei as lágrimas que nem chegaram a cair e marchei até a sala VIP onde Fausto Holanda, o pai do noivo e o homem mais temido do mercado, aguardava. Invadi a sala, tranquei a porta e joguei o iPad na mesa dele. "Jandir fugiu," informei, vendo o cálculo frio em seus olhos cinzentos. "As ações vão despencar amanhã." Ele não se abalou. Mas eu tinha uma solução. "Case comigo," propus, sustentando o olhar dele. "Eu salvo a fusão, limpo a bagunça do seu filho e garanto que ninguém tente te usurpar." Fausto sorriu, um sorriso de predador. Meia hora depois, o mundo entrou em choque quando entrei no altar de braços dados com meu ex-sogro. Agora, sentada na cadeira da matriarca, atendi o telefonema de Jandir chorando porque seus cartões foram recusados em Paris. "O cartão está cancelado, Jandir," eu disse com prazer. "E não me chame de Estela. Nesta casa, hierarquia é tudo. Agora, eu sou sua superior."
O batom tinha um tom chamado "Vermelho Virgem", uma piada cruel que Estela Cavalcanti não achou a menor graça enquanto estava sentada diante da penteadeira na Suíte Presidencial do Hotel Imperial. A mão da maquiadora pairava no ar, o pincel tremendo levemente, esperando que Estela parasse de encarar o próprio reflexo.
Mas Estela não conseguia desviar o olhar. A mulher no espelho era perfeita. Perfeita até demais. O vestido Vera Wang, uma nuvem de seda e renda feita à mão que valia mais do que a maioria das pessoas ganhava em uma década, parecia estar engolindo-a inteira. Seu cabelo escuro estava preso em uma estrutura que parecia menos um penteado e mais uma gaiola.
Ela sentia uma tempestade se formando em suas entranhas. Não o frio na barriga de uma noiva nervosa, mas a queda de pressão pesada e sufocante que precede um furacão devastador.
No balcão de mármore, o celular começou a vibrar. Ele zumbia contra a pedra fria, um som áspero e mecânico que cortava a suave música clássica que tocava na suíte. A tela se iluminou.
Nininha. Sua assistente.
A porta da suíte não se abriu; ela foi escancarada com violência. Nininha estava parada ali, o rosto drenado de sangue, o peito arfando como se tivesse subido correndo os trinta e nove andares. Ela tinha esquecido de bater. Nininha nunca esquecia de bater.
Estela observou o reflexo de Nininha no espelho. A maquiadora recuou o pincel, sentindo a mudança na atmosfera.
"Senhorita Cavalcanti", Nininha engasgou. Ela não se aproximou. Segurava um iPad como se fosse uma bomba prestes a detonar.
Estela virou-se lentamente. A seda do vestido farfalhou, um som como folhas secas. Ela estendeu a mão e pegou o dispositivo. Seus dedos estavam firmes, embora seu coração tivesse começado a martelar um ritmo frenético contra as costelas.
A tela exibia o Instagram. Uma atualização de Story.
Era Jandir.
A foto estava granulada, com filtro em preto e branco para parecer artística, mas a marcação de localização era cristalina: Aeroporto Charles de Gaulle, Paris.
A legenda era curta. Foda-se as correntes. Buscando a liberdade.
Um zumbido agudo começou nos ouvidos de Estela. Era uma sensação física, como uma pressão esmagadora contra seus tímpanos. O quarto inclinou. Seus pulmões travaram, recusando-se a puxar o ar. Buscando a liberdade.
Ele não estava apenas atrasado. Ele não estava com medo. Ele tinha ido embora.
Estela fechou os olhos por um segundo, forçando o ar para dentro do peito. Ela visualizou o iPad se espatifando contra a parede, o vidro voando como diamantes. Mas ela não o jogou. Baixou o dispositivo para a mesa e apertou o botão de bloqueio, mergulhando a tela na escuridão.
"Saia", ela sussurrou para a maquiadora. A mulher não precisou ouvir duas vezes; agarrou seu kit e fugiu.
Antes que a porta pudesse clicar ao fechar, foi aberta novamente. Desta vez, a intrusão foi violenta.
Ricardo Cavalcanti, seu pai, invadiu o quarto. O suor formava gotas em sua testa, arruinando a linha de sua peruca cara. Ele parecia maníaco.
"Onde ele está?" Ricardo rugiu. Ele não olhou para a filha; olhou ao redor da sala como se Jandir pudesse estar escondido embaixo do sofá. "Diga-me que você sabe onde ele está, Estela! O acordo de aquisição depende deste casamento! Se este casamento não acontecer até o meio-dia, o Grupo Holanda aciona a cláusula de inadimplência da holding! Eles vão nos desmontar peça por peça!"
Susana, sua madrasta, vinha logo atrás dele, torcendo as mãos. Seu rosto era uma máscara de terror egoísta.
"Estamos arruinados", ela gemia, a voz irritante. "A imprensa está lá embaixo. Toda a elite dos Jardins está bebendo nosso champanhe. Vamos ser a piada de São Paulo!"
Estela olhou para eles. Realmente olhou para eles.
Eles não viam uma filha cujo coração tinha acabado de ser publicamente arrancado. Eles viam um ativo falido. Eles viam um cheque sem fundo.
Uma onda de náusea a percorreu, seguida por uma raiva fria e clarificadora. Ela endireitou a coluna, o espartilho do vestido agindo como uma armadura.
A Diretora de Relações Públicas da família Holanda, uma mulher chamada Shirlene que parecia mastigar cacos de vidro no café da manhã, entrou na sala, ladeada por dois advogados de rosto sombrio.
"Precisamos de um comunicado", disse Shirlene, com a voz cortante. "Vamos alegar doença súbita. Intoxicação alimentar. Ou talvez um ataque de pânico da noiva. Isso faz você parecer simpática, Estela."
"Simpática?" Estela riu. O som foi quebradiço. "Isso me faz parecer fraca. E faz o preço das ações da Holanda despencar quando o mercado abrir na segunda-feira, porque todos saberão que o herdeiro é instável."
Ricardo agarrou o pulso de Estela. Seu aperto era úmido e desesperado. "Você tem que ir para Paris. Vá atrás dele. Implore se for preciso."
Estela olhou para a mão do pai. Os dedos dele estavam cravando em sua pele, deixando marcas vermelhas que virariam hematomas. Ela sentiu a repulsa subir em sua garganta como bile. Ela puxou o braço de volta com força.
"Não me toque", ela disse, a voz descendo uma oitava.
"Nós temos um Plano B", disse uma voz da porta.
Um dos membros do conselho da Holanda se afastou. Péricles Holanda entrou. O primo de Jandir. Ele usava um smoking que ficava apertado demais no peito, e seus olhos já estavam vidrados com o uísque pré-casamento. Ele olhou para Estela, seu olhar varrendo os ombros expostos dela com uma familiaridade viscosa.
"Estou pronto para intervir", disse Péricles, um sorriso torto emplastrado no rosto. Ele se moveu em direção a ela, sua intenção clara. "Alguém tem que salvar o dia, certo, prima? Sempre gostei dos seus... atributos."
Ele estendeu a mão para tocar o ombro dela.
Estela deu um passo para trás. O salto prendeu no tule, mas ela não tropeçou. Ela olhou para Péricles, um homem que passara a vida vivendo das sobras da linhagem principal da família, um homem que a via como nada mais do que um corpo quente anexado a um fundo fiduciário.
Aquela era a armadilha. Se ela não agisse, seria vendida pelo menor lance para salvar a pele do pai.
"Onde ele está?" Estela perguntou. Sua voz cortou a sala, silenciando os soluços de Susana.
Shirlene piscou. "Jandir está em Paris, Senhorita Cavalcanti. Acabamos de estabelecer isso."
"Não o garoto", disse Estela. Seus olhos eram duros, secos e assustadoramente claros. "O homem que realmente controla o dinheiro. Onde está Fausto Holanda?"
O nome sugou o oxigênio da sala. Ricardo empalideceu. Até Péricles deu um passo para trás, seu sorriso vacilando.
"O Sr. Holanda está na sala de espera VIP lá embaixo", gaguejou Shirlene. "Ele está esperando o início da cerimônia."
Estela abaixou-se e juntou a pesada saia de cetim do vestido. Ela se virou para o espelho uma última vez. Não ajustou o cabelo. Não retocou o batom. Apenas encarou os próprios olhos e matou a garota que queria ser amada.
"Saiam da minha frente", disse ela aos pais.
Ela passou por eles, ignorando seus gritos, e saiu da suíte. Marchou pelo corredor até o elevador, a cauda de seda sibilando contra o carpete como uma serpente.
Enquanto as portas do elevador se fechavam, cortando a visão de sua família caótica, Estela capturou seu reflexo no latão polido.
"Se eu tiver que me vender", sussurrou para a cabine vazia, "vou me vender para quem assina os cheques."
Capítulo 1 1
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Capítulo 2 2
29/01/2026
Capítulo 3 3
29/01/2026
Capítulo 4 4
29/01/2026
Capítulo 5 5
29/01/2026
Capítulo 6 6
29/01/2026
Capítulo 7 7
29/01/2026
Capítulo 8 8
29/01/2026
Capítulo 9 9
29/01/2026
Capítulo 10 10
29/01/2026
Capítulo 11 11
29/01/2026
Capítulo 12 12
29/01/2026
Capítulo 13 13
29/01/2026
Capítulo 14 14
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Capítulo 15 15
29/01/2026
Capítulo 16 16
29/01/2026
Capítulo 17 17
29/01/2026
Capítulo 18 18
29/01/2026
Capítulo 19 19
29/01/2026
Capítulo 20 20
29/01/2026
Capítulo 21 21
29/01/2026
Capítulo 22 22
29/01/2026
Capítulo 23 23
29/01/2026
Capítulo 24 24
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Capítulo 25 25
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Capítulo 26 26
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Capítulo 27 27
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Capítulo 28 28
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Capítulo 29 29
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Capítulo 30 30
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Capítulo 31 31
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Capítulo 32 32
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Capítulo 36 36
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Capítulo 37 37
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Capítulo 38 38
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Capítulo 39 39
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Capítulo 40 40
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