— Darla! — Ella chamou da sala, a voz já carregada de impaciência.
— Já estou descendo! — respondeu Darla, segurando o corrimão enquanto tentava equilibrar-se nos saltos altos.
Cada passo parecia uma batalha. Fazia tanto tempo que não usava um sapato daquele tipo que mal se reconhecia andando daquele jeito.
— Eu definitivamente não sei mais andar de salto — murmurou, franzindo o cenho e fazendo uma careta para os próprios pés.
Ella apareceu no pé da escada, cruzando os braços, mas com um sorriso divertido no rosto.
— Se continuarmos assim, vamos chegar quando a festa já tiver acabado! Não podemos perder o melhor da noite.
Darla suspirou, mas não conseguiu evitar um leve sorriso. No fundo, gostava da energia contagiante da amiga.
As duas haviam combinado de ir juntas ao evento. Para Ella, aquela noite era mais do que diversão — era oportunidade. Haveria colecionadores, curadores e pessoas influentes no mundo da arte, exatamente o tipo de público que poderia impulsionar sua carreira.
Quando decidiram dividir um apartamento em Nova Iorque, a ideia partira de Ella. Ela queria estar mais perto da galeria onde trabalhava — e Darla, por sua vez, precisava de um recomeço.
Ella pintava desde criança. Darla se lembrava perfeitamente do dia em que a amiga lhe mostrara, toda orgulhosa, seu primeiro kit de pintura — um presente de aniversário de nove anos. Desde então, Ella nunca mais parara.
Para Darla, observar a amiga pintar era quase terapêutico. As pinceladas suaves, as cores misturando-se na tela, o silêncio concentrado… tudo aquilo lhe trazia uma paz que raramente sentia depois de tudo o que havia vivido nos últimos meses.
— Vi o táxi chegando — disse Darla, pegando a bolsa e caminhando com cuidado até a porta.
Ella riu ao vê-la andar meio torta.
— Se continuar desse jeito, você vai acabar se acidentando… ou derrubando alguém!
— Muito engraçado — respondeu Darla, revirando os olhos, mas sem conseguir esconder o riso.
Poucos minutos depois, já estavam no carro, atravessando as ruas iluminadas de Manhattan até o hotel onde acontecia o evento.
O salão era grandioso. Lustres de cristal pendiam do teto, refletindo a luz dourada que dançava sobre o chão polido. A música era animada, quase como uma danceteria sofisticada, e pessoas elegantemente vestidas circulavam com taças de champanhe nas mãos.
O tema fora escolhido para deixar os convidados mais descontraídos após o leilão beneficente — cujo objetivo era arrecadar fundos para a reforma da ala norte da galeria onde Ella trabalhava.
Quando chegaram, o leilão já estava praticamente no fim, mas pelo sorriso satisfeito no rosto do chefe de Ella, o evento tinha sido um sucesso absoluto.
— Achei que vocês não viriam mais! — exclamou Daniel ao vê-las entrar.
Ele as abraçou calorosamente.
— Nos atrasamos porque alguém aqui esqueceu como se arrumar para uma festa — provocou Ella, apontando para Darla.
Daniel riu, e Darla apenas deu de ombros, sem graça.
Naquele momento, ela se sentia deslocada. Ao lado de Ella — tão confiante, elegante e social — Darla se sentia pequena, quase invisível.
— Vamos pegar umas bebidas — disse Daniel, já puxando Ella pelo braço.
Ele sussurrou algo em seu ouvido que fez Ella rir alto, completamente distraída. Em poucos segundos, Darla ficou sozinha no meio do salão.
Ela observou as pessoas ao redor: homens em ternos impecáveis, mulheres em vestidos brilhantes, risadas altas, conversas sofisticadas.
Aquilo não era seu mundo.
Preferia mil vezes o silêncio do apartamento, um moletom confortável, um pote de sorvete e uma série qualquer passando na TV.
Ainda assim, decidiu explorar o lugar. Talvez fosse sua única chance de estar em um evento como aquele.
Enquanto caminhava distraída, esbarrou em alguém com força suficiente para fazê-la cambalear.
Quando levantou os olhos, deu de cara com um homem muito alto, vestido em um terno escuro perfeitamente alinhado. Seu rosto era sério, quase severo, e seus olhos a percorreram lentamente, dos pés à cabeça.
Darla sentiu um arrepio estranho descer por sua espinha.
— Desculpe-me — murmurou, incomodada tanto com o choque quanto com o jeito que ele a olhava.
O homem apenas assentiu, sem dizer uma palavra, e voltou-se para o casal com quem conversava, como se ela sequer existisse.
Darla soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.
Ainda abalada, decidiu procurar o banheiro. Precisava se recompor — arrumar a maquiagem, respirar fundo, recuperar o controle de si mesma.
O olhar daquele estranho a fizera sentir-se pequena, mal vestida… vulnerável. E isso despertou memórias que ela lutava diariamente para manter enterradas.
Sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos, e encontrou a porta do banheiro.
Entrou rapidamente — sem notar que o mesmo homem a observava em silêncio até que desaparecesse do salão.
Darla empurrou a porta do banheiro com um pouco mais de força do que pretendia. O ambiente estava quase vazio — apenas uma mulher retocando o batom diante do grande espelho iluminado.
Ela respirou fundo e apoiou as mãos na pia de mármore frio, encarando o próprio reflexo. Então abriu a bolsa e retocou a maquiagem com cuidado, embora soubesse que aquilo era mais uma tentativa de se recompor do que uma real necessidade estética.
Fechou a bolsa lentamente e ajeitou os longos cabelos negros que desciam livres até o quadril. Optara por deixá-los soltos porque o vestido, aberto nas costas, já a fazia sentir-se excessivamente exposta.
Os saltos pressionavam seus pés de forma incômoda. A cada minuto, o desconforto parecia maior, um lembrete de que aquele não era seu mundo, nem sua realidade.
Enquanto encarava seu reflexo no espelho, sua mente voltou — contra sua vontade — ao olhar daquele homem.
Havia algo perturbador nele. Não apenas a frieza, mas a intensidade. Como se ele tivesse visto além de sua aparência… além da superfície.
O coração de Darla acelerou ao lembrar da forma como ele a examinara. Não como quem observa alguém por desejo, mas como quem avalia, mede, julga.
A mulher ao lado lançou-lhe um olhar curioso pelo espelho.
— Primeira vez aqui? — perguntou com um sorriso educado.
Darla forçou um sorriso de volta.
— Sim… não costumo frequentar lugares assim.
— Dá para notar — disse a mulher, sem maldade. — Mas você está linda. Só relaxa.
Darla assentiu, agradecida pelo comentário. Ainda assim, quando ficou sozinha novamente, sentiu o aperto no peito retornar.
Ela fechou os olhos por alguns segundos, tentando afastar lembranças antigas e aquela sensação constante de estar sempre fora do lugar.
Sua mente foi tomada com a lembrança de Samuel naquela última noite, o modo como ele menosprezara seus sentimentos, como se seu corpo e sua entrega fossem irrelevantes.
Ela balançou a cabeça com força, afastando o pensamento. Sentiu um alívio silencioso por não ter cometido aquele erro.
Darla respirou fundo, pegou a bolsa e saiu do banheiro, varrendo o salão com os olhos em busca de Ella.
Avistou a amiga próxima ao bar — cercada de pessoas, como sempre — e deu um passo em sua direção.
Foi então que alguém esbarrou nela novamente.
A bolsa escapou de suas mãos e caiu no chão.
— Acho que já nos esbarramos mais cedo — disse a voz grave à sua frente, enquanto o homem se abaixava ao mesmo tempo que ela para pegar a bolsa.
Darla sentiu um arrepio imediato. Reconheceu-o antes mesmo de levantar o olhar.
Era ele.
O mesmo homem de antes.
Quando se ergueu, ele já segurava sua bolsa. O modo como a examinava — dos pés à cabeça — a irritou profundamente.
O salão atrás dele continuava cheio de gente, música e risadas altas.
— Me desculpe… de novo — disse ela, estendendo a mão para pegar o que lhe pertencia.
Ele a observou com o mesmo olhar intenso de antes. Desta vez, porém, não havia indiferença… havia curiosidade.
— A culpa também foi minha. — disse ele, entregando-lhe a bolsa, com uma voz grave e controlada. — Você parece perdida.
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