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Afinal, quantas vezes e de quantas maneiras uma pessoa pode apanhar até que ela desmorone? Quanto vale a alma de um criminoso?
Estava pensando sobre isso enquanto ouvia a senhora Karen dizer sobre como acabara de ser assaltada em plena luz do dia. Falar sobre como já lutou muito na vida, sendo mãe solteira e desempregada há dois anos, foi uma forma dela aliviar o susto que tinha sofrido. Mesmo as lágrimas em seus olhos não tinham respostas para essas perguntas complexas.
Clara, a filha da dona Karen, a mesma com quem eu trabalho como babá, estava assistindo algum desenho animado no qual eu nunca havia ouvido falar, enquanto a sua mãe me mostrava alguns arranhões que tinham ficado em seus braços como consequência da sua relutância na hora da ação. O que não é surpresa para mim, pois mesmo agora sendo casada com um médico rico, a mulher é uma selvagem quando se trata de dinheiro. Digo no bom sentido. Acho que depois de tanto tempo vivendo em motéis, ela tem um sério trauma e entra em desespero quando a situação financeira se torna desfavorável.
Mas... antes perder alguns trocados do que a vida, não é?
— Ah, minha querida. Desculpe por tomar muito do seu tempo, sei que logo estará anoitecendo e você tem que estar em casa antes disso. — Ela diz enquanto enxuga suas lágrimas com um pequeno lenço que eu havia oferecido, numa forma de consolá-la, já que eu não sabia o que dizer. — Bom, mesmo com esse dia desastroso... tome isso aqui para você.
Vejo ela se virar de costas e pegar algo dentro de uma carteira que se encontrava dentro da gaveta da sala de estar. Quando Karen se vira e eu vejo a nota de cinquenta reais em sua mão, arregalo os meus olhos, embasbacada por ela estar me oferecendo dinheiro depois de tudo isso.
— O que? Por favor, não precisa... — Digo enquanto movo minhas mãos na frente do meu corpo, sentindo minhas bochechas esquentarem.
Um sorriso brilha em seus olhos, e ignorando minhas palavras, ela agarra o meu pulso e põe a nota na palma da minha mão.
— É o seu aniversário, não é? Você nem comentou isso comigo mais cedo, mas a Clara estava animada pois pensava que você poderia abrir os seus presentes com ela, por isso não foi difícil de eu lembrar. E também... eu vejo o quanto você cuida dela com bastante carinho.
Suspiro me virando na direção da garotinha que continua entretida na televisão, com uma roupa completamente rosa e o cabelo bagunçado. Nada diferente do normal. Um sorriso surge em meu rosto e eu volto a olhar para Karen, que se afasta dando de ombros e pegando o seu casaco de cima da mesa.
— Você está liberada, Emma. Se quiser sair com suas amigas ou ficar com a sua família pode tirar o dia de folga. Agora se me der licença, vou tomar um banho e contar a desgraça pela qual passei hoje para o meu marido. Clara, se despeça de Emma e venha comigo.
Clara pula em meus braços para um abraço que eu retribuo com um sorriso.
— Tchau, titia... Não esqueça de avisar para o moço que está te esperando para ser bonzinho.
Ela sai correndo escada acima junto com a sua mãe, me deixando completamente confusa. "Moço que está me esperando"? O que ela quis dizer com isso? Estaria ela falando do meu pai? Não é como se eu já tivesse contado qualquer coisa para ela sobre a minha vida pessoal. E como poderia saber logo da minha realidade? Estou cansada de mentir sobre uma vida familiar dos sonhos, quando na verdade... eu nem sei explicar o que acontece lá em casa.
Definitivamente deve ser mais uma daquelas falas de crianças que nunca conseguimos compreender. Talvez ela ache que eu tenho um namorado? Pensar nessa hipótese me faz rir. Não é como se algum dia eu tivesse coragem de me entregar a alguém além de mim mesma.
E com esse pensamento eu saio da casa de classe média em direção a delicatessen mais próxima da minha casa, situada em um bairro nada favorável, conhecido pelos surgimentos de vários crimes como roubos e até assassinatos. Todos acontecem de uma forma diferente da outra, mas todos ligados por uma única pessoa. A pessoa que comanda o tráfico que até agora tem seu nome em desconhecimento. Ao menos é o que diz Nathália com todas as suas teorias da conspiração.
Quando volto para casa, com minha sacolinha carregada por um bolinho com uma vela e alguns salgadinhos e refrigerante para que eu possa aproveitar meu aniversário, mesmo que eu saiba que tem vários boletos que eu deveria estar priorizando pois sei que o meu pai vai gastar todo o seu salário com bebidas e todas aquelas drogas, já é de noite.
Abrindo lentamente a porta de entrada consigo sentir o cheiro insuportável da bebida invadindo minhas narinas, enquanto tento a todo custo não respirar esse ar tóxico. Tento correr na direção da escada assim que fecho a porta para evitar ser vista pelo homem bêbado que um dia já foi uma inspiração de homem, quando ainda era policial, quando interrompo os meus passos ao perceber um movimento estranho na sala de estar.
Mesmo com as luzes apagadas, eu conseguia o ver deitado no sofá da sala com uma mulher que fazia barulhos estranhos. Senti o meu estômago embrulhar e quase que imediatamente corri para o meu quarto, abrindo a janela do mesmo em busca de acalmar as batidas do meu coração.
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